A Roivant divulgou nesta semana que seu candidato mosliciguat, um ativador da guanilato ciclase solúvel inalado, atingiu os desfechos primários em ensaio de fase 2 para hipertensão pulmonar associada à doença pulmonar intersticial. Traduzindo para quem não vive de jargão farmacêutico, uma molécula desenhada para uma doença que mata devagar e sem barulho mostrou funcionar em pacientes reais, e o mercado, esse organismo que os professores de economia da USP juram ser irracional, precificou a notícia em minutos. Nenhuma comissão parlamentar precisou deliberar, nenhum ministro precisou assinar portaria, nenhum comitê de bioética precisou emitir parecer solene. Investidores privados colocaram bilhões de dólares em risco anos atrás apostando que um punhado de cientistas descobriria algo, e ontem descobriram.

Vale lembrar o arranjo. A Roivant é aquela holding fundada por Vivek Ramaswamy que compra ativos abandonados das big pharmas, monta subsidiárias enxutas, os chamados "vants", e testa se o mesmo composto que morreu na gaveta de uma gigante burocratizada sobrevive num ambiente onde as decisões saem em semanas e não em trimestres. É darwinismo aplicado ao laboratório. O mosliciguat veio da Bayer, ficou parado, foi comprado, virou Pulmovant, e agora entrega dados de fase 2 que a Bayer talvez levasse mais uma década para gerar. Alguém precisa explicar por que a estrutura menor, mais focada e movida a capital de risco entrega o que a corporação gigantesca não entrega, e a resposta desagrada quem vive vendendo a fábula de que só o Estado financia inovação séria.

Porque essa é a lorota que se repete no Brasil desde os anos setenta, que sem BNDES e sem Fiocruz não há remédio, que sem CNPq não há ciência, que sem Ministério da Saúde comprando pacote não há distribuição. Enquanto isso, a molécula que pode salvar pulmões americanos, europeus e eventualmente brasileiros nasce numa cadeia de decisões absolutamente privadas, num ecossistema onde quem erra perde o próprio dinheiro e quem acerta multiplica o próprio dinheiro. O sujeito que investiu na Roivant em 2021 não estava pensando em salvar vidas, estava pensando em retorno, e é justamente esse cálculo egoísta e mesquinho, que os moralistas de LinkedIn condenam, que hoje empurra a fronteira do tratamento pulmonar para frente.

Hipertensão pulmonar associada a doença intersticial é o tipo de patologia que não vende passeata. Não tem cor de faixa, não gera hashtag, não convoca celebridade para gala beneficente. Mata gente idosa, gente com fibrose, gente cujo diagnóstico já vem carimbado de mau prognóstico. Nenhum político ganha eleição prometendo cura para isso, e por isso mesmo, se dependesse de orçamento público, o mosliciguat continuaria numa prateleira química da Bayer até o fim dos tempos. Coube ao capital privado, movido por interesse próprio e disciplinado pelo risco de falência, fazer o que a solidariedade oficial nunca faria: apostar cifras absurdas numa aposta improvável para atender um mercado pequeno.

O próximo capítulo é previsível e melancólico. Se o composto seguir para fase 3 e for aprovado, virá o coro exigindo que a Anvisa acelere, que o SUS incorpore, que o preço seja regulado, que a patente seja quebrada em nome do interesse público. Os mesmos setores que jamais colocaram um centavo no desenvolvimento chegarão para colher, indignados com o preço, esquecidos de que sem preço alto na ponta não haveria a fase 1, a fase 2, a fase 3, o registro, a fábrica, nada. Confundem o custo marginal de fabricar o comprimido com o custo real de descobrir a molécula, e essa confusão não é ignorância, é conveniência ideológica.

Enquanto os intelectuais orgânicos do estatismo brasileiro debatem se o mercado é ou não capaz de gerar inovação, o mercado segue gerando inovação silenciosamente, ensaio por ensaio, molécula por molécula, prejuízo por prejuízo até chegar ao raro sucesso que paga tudo. A notícia da Roivant não é sobre farmacologia, é sobre qual sistema de organização social entrega resultado quando o problema é difícil de verdade. Spoiler para quem ainda não percebeu: nunca foi o comitê.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.