Vamos ao fato seco. A Roper Technologies, conglomerado de software industrial e tecnologia aplicada, voltou a declarar dividendo trimestral, agora de US$ 0,91 por ação. Não é manchete glamourosa, não é IPO de unicórnio, não é promessa de revolucionar nada. É apenas uma empresa devolvendo aos donos uma fatia do lucro que efetivamente gerou. E é exatamente aí que mora o escândalo silencioso, porque virou raridade ver companhia listada que ainda entende que acionista é sócio, não plateia.

Olha, num mercado em que metade das gigantes de tecnologia opera no vermelho contábil e finge prosperidade emitindo ações para os próprios executivos, distribuir caixa real, trimestre após trimestre, é quase ato de rebeldia. A Roper acumula décadas de aumentos consecutivos de dividendo, e isso só é possível por um motivo trivial que o noticiário financeiro insiste em esconder, ela gera fluxo de caixa livre acima do que consome. Coisa simples, coisa antiga, coisa que o burocrata da SEC e o regulador europeu adorariam complicar com mais cem páginas de relatório ESG.

Quer dizer, enquanto o Federal Reserve mantém a tubulação de crédito ligada para sustentar zumbis corporativos que só sobrevivem refinanciando dívida, uma empresa que não depende dessa muleta entrega resultado palpável. O dividendo, este instrumento tão antiquado, tão fora de moda nas mesas de research, é o termômetro mais honesto do capitalismo de verdade, aquele em que o capital flui para quem produz, não para quem grita mais alto no Twitter ou monta narrativa para o próximo round de venture capital.

Siga o dinheiro e veja o desenho. Numa economia saudável, o lucro empresarial volta para o bolso de quem arriscou poupança, e essa poupança é reinvestida em outras empresas produtivas, novos negócios, novas fábricas, novos empregos. Numa economia drogada por juro artificial, o lucro é canibalizado em recompra alavancada para empurrar a cotação, o executivo exerce suas opções, o fundo passivo aplaude, e o aposentado que vive de renda fica olhando para o vento. A Roper, por enquanto, escolheu o lado antigo da história, e por isso paga.

Me diz uma coisa, quantas empresas você consegue lembrar que ainda fazem o básico sem precisar de subsídio, isenção setorial, bondade do BNDES ou crédito de carbono inventado? Esse é o ponto que ninguém quer encarar. O capitalismo real, aquele que prescinde de padrinho estatal, sobrevive em ilhas cada vez menores, cercado por um oceano de capitalismo de compadrio em que a fronteira entre empresa e governo virou borrão. Cada dividendo pago em dinheiro de verdade é um lembrete incômodo de que a coisa pode funcionar sem o senhor regulador no comando.

A frase-martelo é simples. Empresa que paga dividendo crescente há décadas não precisa de palestra sobre stakeholder capitalism, ela já entregou o que prometeu desde o primeiro minuto, lucro convertido em caixa, caixa convertido em renda para o sócio. O resto é teatro corporativo financiado pelo dinheiro que o banco central imprime e que, no fim, todo mundo paga na conta do supermercado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.