Existe uma figura curiosa rondando os círculos que se autodenominam amantes da liberdade, sobretudo nos Estados Unidos, mas que já infectou tropicalmente algumas cabeças por aqui. É o sujeito que jura de pés juntos detestar imposto, abomina o banco central, considera a Receita um braço armado do confisco, e ao mesmo tempo aplaude de pé cada nova aventura militar do Pentágono mundo afora. Quer dizer, o Estado é tirano quando regula o preço do leite, mas é herói civilizatório quando bombardeia uma vila no Iêmen. A esquizofrenia intelectual aqui é tão evidente que dá vergonha alheia precisar explicá-la.

O ponto que esses cavalheiros fingem não enxergar é trivial: o império custa caro, e quem paga é exatamente o cidadão que eles dizem querer libertar. Cada porta-aviões cruzando o Pacífico, cada base instalada num deserto cujo nome ninguém sabe pronunciar, cada drone teleguiado, é financiado por um arranjo que combina os três piores instrumentos do arsenal estatal: imposto direto, dívida pública impagável e impressão de moeda. Olha, isto não é detalhe secundário, é a engrenagem central. Não existe orçamento militar trilionário sem máquina inflacionária rodando a todo vapor, e não existe máquina inflacionária sem destruição silenciosa da poupança de quem trabalha.

Aí entra a parte que ninguém quer ver, porque exige aritmética simples e um pouco de honestidade. Cada dólar gasto numa fragata é um dólar não gasto numa fábrica que jamais existirá, num emprego que jamais será criado, numa casa que jamais será comprada. O custo visível é a manchete patriótica do canhão disparado; o custo invisível é a vida econômica que foi sufocada para que o canhão pudesse disparar. Um país que transfere produtividade da iniciativa privada para o complexo industrial militar não está se defendendo, está se canibalizando em câmera lenta enquanto agita bandeira.

E quando a gente segue o dinheiro, o cheiro fica insuportável. As mesmas meia dúzia de empreiteiras de armamentos que abocanham contratos bilionários sem licitação séria são as que financiam campanhas dos dois lados do espectro, contratam generais aposentados como lobistas, e mantêm think tanks inteiros para produzir o relatório que comprova ser urgentíssimo invadir o próximo país. Isso não é livre mercado, é capitalismo de compadrio fardado. Quem chama isso de defesa da liberdade ou está enganado ou está recebendo, e em política a segunda hipótese costuma ser a correta.

Tem ainda o efeito doméstico, que é o mais perverso de todos. Toda guerra externa é desculpa para regulação interna. Vigilância de massa, censura preventiva, controle de capitais, leis de exceção que viram regra, agências de três letras que crescem como câncer, tudo justificado pela emergência permanente da ameaça lá fora. O cidadão que aplaudiu a bomba na semana passada amanhece descobrindo que seu telefone é grampeado, sua transação bancária é monitorada, sua opinião nas redes é classificada como ameaça à segurança nacional. Quem entrega liberdade em troca de segurança imperial acaba sem uma coisa nem outra, e ainda paga a conta no fim do mês.

A coerência exige escolher um lado e ficar nele. Ou se acredita que o Estado é uma instituição perigosa, que precisa ser amarrada com correntes constitucionais bem grossas e mantida ocupada apenas com funções mínimas, e nesse caso o militarismo expansionista é o primeiro inimigo a ser combatido, porque é o maior consumidor de poder e dinheiro alheio que existe. Ou se acredita que o Estado pode ser usado para fins nobres quando comandado pelas pessoas certas, e nesse caso, parabéns, você é só mais um socialista, falta apenas escolher a cor do uniforme. Liberdade verdadeira não tem fronteira nem conveniência ideológica, ou vale para o agricultor afegão e para o empresário americano, ou não vale para ninguém.

Com informações da Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.