A indústria que prometeu inteligência artificial geral em três anos, depois em cinco, depois em dez, agora descobriu que precisa de uma sigla nova para continuar arrecadando cheques. Sai a AGI, entra a RSI, sigla bonitinha para recursive self-improvement, ou, em bom português, a fantasia de uma máquina que se aperfeiçoa sozinha até virar deus. Os laboratórios mais recentes, com aquele ar de seita iluminada que já conhecemos bem, juram que dessa vez é diferente. Sempre é diferente. E nunca é.
O conceito, convém lembrar, não nasceu ontem na cabeça de nenhum gênio de hoodie em São Francisco. Já no século passado havia matemáticos discutindo, em prosa árida e honesta, a hipótese de uma máquina capaz de redesenhar a própria arquitetura. A diferença é que aqueles sujeitos tratavam o assunto como problema técnico, com humildade epistêmica, sem rodar pitch deck nem captar bilhão em série B. Hoje a mesma especulação virou produto, vendido em painéis de conferência por gente que confunde slide com demonstração e marketing com engenharia.
Note bem o roteiro. Primeiro inventam uma sigla apocalíptica. Depois alertam para o perigo iminente da própria criação, num gesto de falsa modéstia que serve, na prática, para inflar o valuation. Em seguida exigem regulação, mas só para si mesmos, de modo a estrangular o concorrente menor que ainda não tem advogado em Washington. O resultado é sempre o mesmo: concentração de poder, captura regulatória, e a plebe dos engenheiros de verdade ficando para trás enquanto os profetas do colapso enriquecem vendendo o próprio cavalo do apocalipse.
Há um detalhe técnico que ninguém quer encarar de frente. Uma máquina não se melhora no vácuo. Ela precisa de silício, de energia, de dados, de bancada física, de gente suando em laboratório limpo na Ásia para que o tal aperfeiçoamento aconteça. A ideia de uma inteligência que decola sozinha, descolada do mundo material, é misticismo travestido de ciência da computação. É a velha tentação gnóstica reaparecendo de jaleco branco, jurando que o espírito pode existir sem corpo, que o software pode prescindir do hardware. Não pode. Nunca pôde.
Siga o dinheiro, como sempre. Quem está bancando essa nova rodada de promessas é exatamente o mesmo capital que financiou a anterior, e a anterior da anterior, num ciclo de fé renovada que faz qualquer pirâmide financeira parecer modesta. Os fundos precisam de uma narrativa para justificar avaliações estratosféricas, e quando a narrativa antiga começa a cheirar mal, contrata-se uma nova sigla. A imprensa especializada, dócil como sempre, repete o catecismo sem questionar. Afinal, criticar o patrocinador é mau negócio.
Enquanto isso, a gente que constrói coisa de verdade continua trabalhando em silêncio. Quem forja chip, quem escreve kernel, quem otimiza compilador, quem mantém código aberto rodando sem cobrar pedágio, esses não dão entrevista sobre superinteligência. Estão ocupados demais fazendo a infraestrutura que sustenta o circo. A RSI talvez chegue um dia, ou talvez não chegue nunca. Mas a história já mostrou, com clareza desconfortável, que quem promete o paraíso costuma estar vendendo o inferno embrulhado em papel celofane.
Com informações da TechCrunch. A análise e opinião são do O Algoz.