David Bailey, o sujeito que construiu a RTB Digital e organizou a maior conferência de bitcoin do planeta, acaba de pedir as contas do próprio conselho que ajudou a erguer. O motivo declarado é dedicação integral à Nakamoto, o veículo que ele vem montando para acumular bitcoin em escala corporativa, no estilo daquela jogada que ficou famosa quando uma empresa de software trocou seu caixa por satoshis e virou outra coisa no caminho. Quer dizer, o homem está saindo da sala de reuniões para ir cuidar do cofre. E quando alguém que viveu de vender ingressos para conferência decide largar tudo para empilhar ativo escasso, vale prestar atenção no que ele está enxergando que os outros fingem não ver.

Olha, é fácil tratar isso como mais uma fofoca de governança corporativa, troca de cadeiras entre executivos de criptomoeda. Mas o que está se vendo aqui é um capítulo da fuga silenciosa do dinheiro estatal. Bailey não está montando uma fintech para oferecer cartão de crédito com cashback nem um banco digital para competir por margem de spread. Ele está construindo um cofre. Um cofre cuja função única é abrigar uma moeda que nenhum banco central consegue diluir na calada da noite. Isso, em qualquer época da história, se chamou pelo nome certo: refúgio. Quando os homens de negócio começam a sair dos conselhos para guardar metal, é porque já desconfiam que a casa de cima está com cupim na estrutura.

Me diz uma coisa, por que justamente agora? Porque o cálculo é trivial para quem sabe somar. Governo nenhum no mundo, do mais rico ao mais quebrado, está disposto a parar de gastar mais do que arrecada. A solução para essa equação impossível tem sido sempre a mesma, repetida desde Roma diluindo prata em cobre até o Tesouro americano emitindo trilhões em pandemia: imprime-se a diferença e empurra-se a conta para quem segura a moeda. O cidadão comum paga essa conta toda manhã no supermercado e acha que o problema é o dono da padaria. O homem que entende o jogo monta um cofre.

E aqui entra a parte que ninguém quer discutir em rede aberta. Uma tesouraria corporativa em bitcoin é, na prática, uma declaração de independência do sistema bancário central. É dizer, com balanço auditado, que a empresa não confia mais no instrumento monetário oficial como reserva de valor. Multiplique isso por dezenas, centenas, milhares de empresas fazendo o mesmo movimento, e você tem o início de uma corrida silenciosa, sem fila no caixa, sem manchete de pânico, mas devastadora para a credibilidade do dinheiro decretado por lei. O que se vê é uma empresa trocando de presidente. O que não se vê é a desconfiança institucionalizada virando estratégia de balanço.

A reação previsível dos reguladores virá embrulhada nos verbetes de sempre, proteção do investidor, prevenção à lavagem, riscos sistêmicos, todo o vocabulário paternalista que serve para esconder o ressentimento de quem perdeu o monopólio. Vão querer enquadrar, taxar, dificultar, criar exigências de compliance que só grandes players conseguem cumprir, exatamente como fizeram com o sistema bancário tradicional. O nome técnico para isso é captura regulatória, o nome popular é cartório. O resultado é sempre o mesmo: protege-se o incumbente, mata-se o concorrente, e a culpa é jogada no mercado.

O recado que Bailey está mandando, sem precisar dizer uma palavra, é que a aposta dele não é em mais uma plataforma de serviços financeiros, é na própria escassez do ativo. Enquanto governos e bancos centrais estiverem aprisionados na obrigação política de imprimir, alguém estará do outro lado da mesa acumulando aquilo que não pode ser impresso. Essa é a única assimetria que importa na história monetária dos últimos cinquenta anos, e ela continua aberta, escancarada, esperando que mais gente preste atenção. Os homens de visão já fizeram a fila. Os outros vão pagar o ingresso depois.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.