A notícia chega embrulhada no papel celofane de sempre. Empresa asiática anuncia plataforma de IA, gráfico sobe, analista de banco fala em "disrupção", e o leitor distraído engole mais uma rodada da mesma encenação que se repete há três anos. Ruanyun é o nome da bola da vez, mas poderia ser qualquer outro nome. O modelo de negócios é idêntico: terceirizar para algoritmo a tarefa de produzir palavras, imagens e vídeos que ninguém pediu, para alimentar um mercado publicitário que finge não ter percebido que o consumidor desligou.
Quando se segue o dinheiro, a coisa fica mais clara. Toda plataforma desse tipo nasce com a mesma promessa dupla: cortar custos de quem produz conteúdo de massa e capturar margem de quem antes pagava redator, designer, roteirista. O empresário ouve "produtividade" e abre o cofre. O investidor ouve "escala" e compra a ação. Ninguém ouve a pergunta óbvia, que é qual o valor real de um texto que ninguém escreveu para ninguém ler. O preço de produzir cai a zero; o preço de ser lido sobe ao infinito. É a aritmética cruel da abundância sem propósito.
Há um detalhe geográfico que merece atenção. Empresa chinesa lançando ferramenta de geração de conteúdo é um negócio que se faz dentro de um ecossistema onde o conteúdo é, antes de tudo, instrumento de Estado. Não existe na China indústria de mídia desacoplada do Partido, não existe plataforma de IA sem supervisão do Politburo, não existe modelo de linguagem que não tenha sido alinhado às diretrizes ideológicas de Pequim. Quem importa essa tecnologia para alimentar portais brasileiros, agências de marketing brasileiras, redes sociais brasileiras, está importando junto a curadoria invisível de quem decidiu, lá longe, o que pode e o que não pode ser dito.
O argumento de venda dessas plataformas é sempre o mesmo, e a falácia também. Dizem que vão democratizar a criação, libertar o pequeno empresário, dar voz a quem não tinha. Bonito no panfleto. Na prática, o que acontece é o inverso. Quando todo mundo passa a publicar com a mesma ferramenta, treinada nos mesmos dados, otimizada para os mesmos algoritmos de distribuição, o resultado é um oceano de mesmice que afoga justamente a voz original que diziam querer libertar. A ferramenta que prometia diversidade entrega padronização. A ferramenta que prometia liberdade entrega dependência de uma stack tecnológica controlada por meia dúzia de empresas, quase todas alinhadas com governos que não são exatamente fãs do livre pensamento.
Existe ainda a questão mais incômoda, que é a econômica de verdade. Toda essa enxurrada de conteúdo sintético está sendo paga com expansão de crédito barato, capital de risco subsidiado por juros artificialmente baixos, e expectativa irracional de retorno futuro. Quando o ciclo virar, e ele sempre vira, as plataformas que sobreviverem serão as que entregaram utilidade concreta, não as que produziram volume. As outras vão para o cemitério das promessas tecnológicas, ao lado do metaverso, dos NFTs e das startups de patinete elétrico. A bolha de IA generativa tem prazo de validade, e o relógio já está correndo.
O leitor que enxerga além do release entende a piada. A imprensa noticia o lançamento como se fosse avanço civilizacional; o que aconteceu, na verdade, foi mais uma fábrica abrindo as portas para produzir um bem cuja oferta já é infinita e cuja demanda real é zero. Conteúdo de qualidade continua escasso, continua caro, continua sendo feito por gente que pensa. Tudo o resto é ruído industrial vendido em embalagem futurista. E quando o ruído industrial vira commodity, quem ganha não é quem produz, é quem ainda sabe calar a máquina e dizer algo que valha a pena ser lido.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.