O Índice MOEX Russia subiu 1,14% nesta sessão, e essa frase deveria bastar para encerrar três anos de delírio coletivo da imprensa econômica ocidental. Lembra quando garantiram, com a solenidade de quem lê tábuas vindas do monte, que a economia russa entraria em colapso em semanas? Que o rublo viraria pó? Que as sanções ajoelhariam Moscou antes do verão? Pois é. Os papéis russos seguem precificando lucro, dividendo e expectativa de fluxo de caixa, indiferentes ao roteiro que jornalistas de Londres escreveram para eles.

O detalhe que ninguém na grande mídia quer encarar é simples: preço de ativo é informação destilada, e informação destilada não obedece a sanção, embargo ou indignação moral de chanceler. Quando milhões de agentes, dentro e fora da Rússia, calculam que aquelas empresas continuam vendendo petróleo para a Índia, gás para a China, fertilizante para o Brasil e trigo para meio mundo árabe, o índice sobe. Não porque alguém goste do Kremlin, mas porque a realidade econômica é teimosa, descentralizada e profundamente inconveniente para quem confunde decreto com lei da física.

Vale seguir o dinheiro, como sempre. Quem ganhou com o pacote de sanções? As tradings de Genebra que reembalaram o petróleo russo via terceiros, os intermediários do Golfo que cobraram pedágio em cada barril, os bancos que cobraram spread em cada operação de contorno e a indústria americana de gás liquefeito, que substituiu fornecedor russo na Europa cobrando o triplo. Quem perdeu? O consumidor alemão pagando energia mais cara, a indústria química europeia que está fechando portas, o contribuinte que financia ajuda a Kiev e o cidadão russo médio, esse sim, que continua sendo a vítima conveniente de uma política que, quando funciona, machuca quem não tem para onde fugir, e quando não funciona, alimenta o nacionalismo que prometia destruir.

Há também a piada amarga sobre a impressora ocidental. Enquanto se aplaude a alta da bolsa de Nova York como sinal de saúde econômica, finge-se que a alta da bolsa russa é estatística manipulada. Curioso critério. Mercado livre é mercado livre quando confirma a narrativa, e propaganda do regime quando contraria. A verdade mais simples é que tanto Wall Street quanto Moscou estão sendo empurrados, em medidas diferentes, pela mesma droga monetária: emissão, juros artificiais e busca desesperada por ativo real num mundo onde a moeda fiat virou folha seca.

O episódio ensina algo que economista de banco brasileiro nunca quer admitir em horário nobre. Sanção generalizada raramente derruba regime, quase sempre fortalece o autocrata interno e quase nunca produz o resultado anunciado no comunicado oficial. Custa caro a quem aplica, machuca o povo que dizia querer libertar e enriquece o intermediário que sabe nadar entre regras. É o velho roteiro da intervenção que gera a próxima intervenção, e da próxima intervenção que justifica a seguinte, num espiral em que ninguém mais se lembra do problema original.

No fim do pregão, 1,14% é só um número. Mas é um número que devolve a gravidade ao debate público. Não existe almoço grátis em geopolítica, não existe sanção indolor, não existe planejador central capaz de prever como milhões de pessoas vão contornar o obstáculo que ele acabou de erguer. O mercado, esse organismo desorganizado que tanto irrita os apaixonados pelo controle, segue fazendo o que sempre fez: encontrar o caminho. E enquanto burocrata de Bruxelas escreve seu décimo sexto pacote, o russo médio compra ação, o indiano compra petróleo barato e o alemão paga a conta. Anota aí: quem decreta a realidade sempre perde para quem a calcula.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.