O comunicado de Moscou foi cirúrgico, quase didático: tirem os estrangeiros de Kiev porque as instalações de defesa serão atingidas. Não é blefe, não é poesia de propaganda, é a velha gramática da guerra avisando que a próxima rodada será mais cara. E enquanto isso, os mesmos governos europeus que há três anos prometiam que a Ucrânia venceria "em semanas" continuam com a cara enfiada no balcão da indústria de armas, fingindo que o cheque em branco assinado em nome do contribuinte é diplomacia.
Olha, vamos chamar as coisas pelo nome. Não existe guerra eterna sem alguém ganhando rios de dinheiro com ela. Cada míssil que sai de uma fábrica em Tucson, em Stuttgart, em Bristol, tem um destinatário invisível bem mais lucrativo que o front: o acionista, o lobista, o ex-general que virou consultor, o think tank de Washington que existe exatamente para justificar o próximo pacote de "ajuda". Siga o dinheiro e o conflito ucraniano deixa de ser cruzada moral e vira aquilo que sempre foi: o maior programa de transferência de renda da história recente, do bolso do trabalhador europeu para o caixa da Lockheed, Rheinmetall e BAE Systems.
Quer dizer, o cidadão alemão que paga conta de luz triplicada porque destruíram o Nord Stream, o aposentado britânico que congela no inverno, o jovem francês que não consegue alugar um quitinete em Lyon, todos esses estão sustentando uma guerra que ninguém votou, ninguém aprovou em referendo, ninguém explicou de forma honesta. A guerra é o que se vê. O que não se vê é a fábrica que fechou na Saxônia, o investimento que não aconteceu na Lombardia, a poupança corroída pela inflação que o Banco Central Europeu fabricou para financiar a festança fiscal de Bruxelas.
E aí entra a parte tragicômica. O mesmo Ocidente que se gaba de ser farol da liberdade mantém uma lei marcial em Kiev que cancelou eleições, fechou igrejas, prendeu opositores e proibiu jornalistas de fazer perguntas inconvenientes. Quando o regime amigo faz isso, é "necessidade de guerra". Quando o regime inimigo faz a mesma coisa, é "tirania". Esse cinismo industrial, essa hipocrisia organizada em escala de OTAN, é o que mata a credibilidade ocidental muito mais rápido do que qualquer drone russo.
Me diz uma coisa, qual cerca foi derrubada aqui? A cerca da soberania territorial pós-1945, a cerca da diplomacia como ferramenta civilizatória, a cerca do dinheiro público como bem escasso que pertence ao contribuinte. Tudo derrubado em nome de uma narrativa que não admite debate, porque debate é coisa de "agente russo", como se discordar do Departamento de Estado fosse equivalente a vestir a farda de Putin. É a velha tática: quem controla o vocabulário controla o que pode ser pensado, e quem controla o pensável controla o votado, o aprovado, o financiado.
O aviso de Moscou para os estrangeiros saírem de Kiev tem, no fundo, um endereço muito mais amplo. É um aviso para que o cidadão comum entenda que está dentro de uma guerra que não é dele, paga com dinheiro que não sobra, em nome de objetivos que ninguém sabe definir. Quando a fumaça baixar, e ela vai baixar, vai sobrar uma Ucrânia em ruínas, uma Europa empobrecida, uma Rússia mais isolada e mais nuclear, e um único vencedor inequívoco: o complexo industrial-militar que transformou a tragédia alheia em dividendo trimestral. Guerra prolongada nunca foi sobre vitória. Sempre foi sobre receita recorrente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.