Dezoito jovens mortos num dormitório estudantil, e em menos de algumas horas o Kremlin já tinha culpado, processado e condenado a Ucrânia pelo ataque, tudo isso sem investigação independente, sem perícia internacional, sem absolutamente nada além da palavra de um regime que mente sobre o tamanho do próprio exército, sobre o número dos próprios mortos e sobre a cor do céu quando lhe convém. Quer dizer, estamos diante daquele velho roteiro em que o agressor se veste de vítima e o cadáver vira munição de propaganda antes de virar luto de família. E o mundo, claro, repete a manchete como papagaio de feira.
Olha, a verdade incômoda é que toda guerra moderna se sustenta menos pela pólvora e mais pelo orçamento. Cada míssil disparado é um contrato de defesa renovado, cada cidade bombardeada é uma rodada de empréstimo do banco central justificada, cada criança morta é um decreto de mobilização assinado sem resistência parlamentar. Siga o dinheiro e você encontra os mesmos suspeitos de sempre: a indústria bélica estatal russa engordando com requisições compulsórias, a oligarquia ucraniana drenando pacotes de ajuda ocidental, e os bancos centrais dos dois lados imprimindo papel para financiar o massacre enquanto a inflação devora o salário do soldado raso que morre nas trincheiras de Donetsk.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que existe diferença moral entre o ditador que invade país vizinho alegando segurança nacional e o presidente fantoche que prolonga a guerra para garantir a transferência bilionária do contribuinte americano? Os dois precisam da carnificina pelo mesmo motivo: sem inimigo externo, o poder interno desmorona. O dormitório bombardeado, seja qual for o autor verdadeiro do tiro, serve aos dois lados como combustível narrativo. Putin precisa de mártires russos para justificar a próxima leva de recrutamento forçado. Zelensky precisa de vilões russos para justificar o próximo pacote de quarenta bilhões em armamento que será desviado antes mesmo de chegar ao front.
E o que ninguém vê, porque ninguém quer ver, é o custo invisível dessa contabilidade macabra. Cada euro gasto em obus é um hospital que não se constrói na Alemanha. Cada dólar enviado para Kiev é um aposentado americano comendo ração de cachorro em Ohio. Cada rublo impresso para pagar soldado é uma babushka russa perdendo a economia de uma vida inteira no supermercado. A guerra não tem causa econômica, tem consequência econômica, e essa consequência é sempre a mesma: o cidadão comum, dos dois lados da fronteira, paga a conta de uma briga que não escolheu, em nome de uma pátria que não o representa, contra um inimigo que ele nunca viu pessoalmente.
O grotesco do nosso tempo é que a opinião pública internacional já desistiu de pensar e adotou times de futebol geopolíticos. Há os que torcem pela Rússia porque odeiam Washington, há os que torcem pela Ucrânia porque odeiam Moscou, e quase ninguém tem a coragem intelectual de dizer que ambos os governos são quadrilhas armadas disputando território, recursos e narrativa enquanto os corpos se empilham. A liberdade individual, a propriedade privada, o direito de um estudante de dormir em paz no seu alojamento, nada disso entra na equação de quem comanda exércitos. E não entrará nunca, porque o Estado em guerra é o Estado na sua forma mais pura, mais sincera e mais letal.
Dezoito jovens estavam estudando para construir uma vida, e agora viraram estatística numa coletiva de imprensa do Kremlin. A próxima manchete virá amanhã, com outro número, outra cidade, outra acusação cruzada. E nós, do lado de cá, continuaremos a engolir comunicados oficiais como se fossem reportagem, esquecendo que em guerra a primeira vítima é sempre a verdade, e a segunda é o bolso de quem nunca pegou em arma.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.