O Kremlin anunciou uma pausa humanitária em homenagem à Páscoa ortodoxa. Kiev respondeu dizendo que continuaria defendendo seu território. E então, com a solenidade de quem acende uma vela antes de atear fogo na casa do vizinho, os dois lados passaram o fim de semana santo trocando drones, mísseis e acusações mútuas de violação, cada qual com sua lista de incidentes devidamente catalogada para a imprensa internacional. Isso é o quarto aniversário de um conflito que ninguém sabe como terminar e muitos não querem que termine.

Existe uma tradição longa, e não especialmente honrosa, de usar a religião como cosmético sobre o rosto da guerra. Reis medievais declaravam tréguas no Advento e no Natal, e as violavam antes do soar dos sinos. O que mudou desde então é o aparato de comunicação: agora a encenação é transmitida ao vivo, com cobertura dedicada, e os generais de ambos os lados aprenderam que a narrativa importa tanto quanto o território. Uma trégua que ninguém cumpre ainda vale como gesto, porque o gesto vai para o jornal e os mortos não.

Quatro anos de guerra produziram algumas certezas inconvenientes. A primeira é que o conflito há muito deixou de ser uma questão bilateral entre dois países eslavos com disputas territoriais legítimas e se transformou num teatro de operações para interesses que ficam bem longe das trincheiras. A indústria bélica ocidental nunca vendeu tanto. Os contratos de reconstrução já estão sendo redigidos em Bruxelas e Washington antes mesmo de o último obus cair. Siga o dinheiro e você raramente chegará à verdade completa, mas chegará sempre a uma verdade inconfortável que o consenso prefere ignorar.

A segunda certeza é que nenhum aparato burocrático internacional, nenhum comitê, nenhuma cúpula de emergência convocada com urgência foi capaz de encerrar este conflito. Não porque careçam de recursos ou inteligência, mas porque os incentivos apontam em outra direção. Quando uma instituição existe para "gerenciar" uma crise, a resolução da crise ameaça a existência da instituição. É a lógica do paradoxo que ninguém verbaliza em discurso oficial: organismos criados para trazer paz têm interesse estrutural na permanência do problema que justifica sua existência.

A Ucrânia resiste há quatro anos com uma tenacidade que qualquer observador honesto precisa reconhecer. A Rússia insiste num conflito cujos custos humanos e econômicos já ultrapassaram qualquer ganho territorial realista. E o Ocidente continua financiando sem estratégia de saída, como quem alimenta um incêndio com a sincera esperança de que a fumaça vá embora sozinha. Nesse ínterim, a Páscoa foi usada como peça de teatro diplomático, a paz foi invocada como slogan e a guerra continuou como negócio. O que é novo nessa história não é o comportamento dos Estados, que é imutável, mas a velocidade com que todos fingem surpresa toda vez que ele se repete.

Há uma frase antiga, atribuída a vários generais ao longo dos séculos, que diz que a primeira vítima da guerra é a verdade. Errado. A primeira vítima são os soldados que ninguém pediu que morressem, mas que morreram de qualquer forma enquanto os homens de terno discutiam cessar-fogo em salas climatizadas. A verdade é a segunda vítima. E a terceira, a paz que cada lado jura defender enquanto programa o próximo ataque.

Com informações do InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.