A Rússia comunicou à agência TASS que está pronta para fornecer gás natural à União Europeia caso disponha de excedente. Uma frase. Simples. Objetiva. E devastadora para qualquer um que passou os últimos quatro anos assistindo líderes europeus discursarem sobre "independência energética", "soberania renovável" e a necessidade histórica e moral de cortar os laços com Moscou. O discurso custou fortunas nas faturas de eletricidade dos alemães, italianos e poloneses. O discurso não pagou uma única conta.

Quer dizer, o que aconteceu entre 2022 e hoje não foi uma transição energética planejada com racionalidade. Foi uma crise autoinfligida administrada com a competência típica de quem toma decisões com o dinheiro dos outros. A Europa trocou o gás russo, barato, por gás liquefeito americano, caro, transportado em navios através do Atlântico, comprado a preços de guerra porque era exatamente isso, uma guerra, de mercado inclusa. Quem pagou? O cidadão comum com a conta de luz. Quem ganhou? As exportadoras de GNL americanas, que multiplicaram receitas enquanto os parlamentos europeus aplaudiam de pé a própria ruína.

Olha, existe um princípio econômico que os burocratas de Bruxelas nunca conseguiram assimilar: toda intervenção política no mercado de energia transfere riqueza de alguém para outro alguém, e o cidadão raramente está no lado do recebimento. Quando a Alemanha decidiu fechar suas usinas nucleares e se tornar dependente do gás russo ao mesmo tempo, foi uma escolha política. Quando depois decidiu cortar o gás russo sem ter alternativa equivalente em escala ou preço, foi outra escolha política. Nenhuma das duas foi consultada com o padeiro de Munique ou o eletricista de Nápoles. Mas ambas chegaram na conta deles.

Me diz uma coisa: por que razão um governo que fracassou em garantir energia barata e segura para sua população merece crédito por ter "resistido" a Moscou? A resistência foi real, sim. Mas foi paga por um lado só da equação. Os ministros não ficaram no escuro. As indústrias energointensivas que fecharam na Europa não eram dos parlamentares. As famílias que passaram o inverno de 2022 reduzindo aquecimento não eram as famílias que votaram as sanções. Isso tem nome na história econômica: é o custo socializado pelo benefício concentrado, e acontece sempre que o poder político decide substituir o mercado pelas próprias convicções.

E agora, quatro anos depois, com a Europa ainda tentando montar uma matriz energética coerente, com eólicas insuficientes nos dias sem vento e solar inútil nos invernos nórdicos, Moscou abre a torneira, metaforicamente, e diz: se tiver excedente, fornecemos. A linguagem é de mercado puro. Sem rancor. Sem revanchismo. O gás não tem ideologia. Tem preço. E o preço certo, na quantidade certa, para quem precisa. A própria frieza da declaração é uma humilhação para o projeto político que tentou redesenhar o mapa energético do continente na base de decretos e vontade.

A questão agora não é técnica, é política, e portanto é de vaidade. A Europa vai comprar o gás russo se precisar, como já comprou durante décadas com muito menos drama. Vai comprar pela Turquia, pelo GNL revendido, por contratos com nomes genéricos que não aparecem nos jornais, porque o fluxo real de commodities nunca obedeceu completamente ao fluxo de sanções. A história está cheia de embargos que duraram até o preço de sustentar o embargo superar o custo de abandoná-lo discretamente. O gás russo voltará para a Europa. A questão é quanto a classe política vai cobrar do contribuinte pelo intervalo de heroísmo que sustentou enquanto durou.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.