Saba Capital se desfez de cerca de US$ 3,3 milhões em cotas do BlackRock ECAT, o tal fundo fechado de inovação tecnológica que a maior gestora de ativos do planeta empurra como vitrine de modernidade. Anunciaram como se fosse movimento técnico, ajuste de carteira, coisa burocrática que cabe num formulário 13G arquivado às escondidas de sexta à noite. Quem leu o comunicado e voltou para o café achou que era detalhe. Não é detalhe. É um dos fundos ativistas mais agressivos do mercado americano dizendo, em letrinha miúda, que o brinquedo da BlackRock não está entregando o que promete.

O ECAT é uma criatura típica da era do dinheiro fácil. Nasceu em 2021, no auge da bolha de tudo, vendido como porta de entrada para a "próxima geração" de empresas disruptivas, fintechs, biotechs, inteligência artificial, o catálogo inteiro do hype. Cobra taxa generosa, opera com alavancagem, e desde o primeiro dia negocia com desconto sobre o valor patrimonial. Quer dizer, o mercado, esse organismo teimoso que ninguém consegue domesticar, vinha gritando há anos que aquele empacotamento valia menos do que a soma das partes. A Saba, que vive de farejar exatamente esse tipo de discrepância, entrou comprando barato, pressionou por recompra, e agora sai recolhendo o lucro. Capitalismo funcionando. O problema é o que o funcionamento revela.

Quando uma gestora de US$ 11 trilhões precisa de fundo fechado alavancado para vender narrativa de inovação ao varejo, alguma coisa está errada no andar de cima. Olha, a lógica do produto é a mesma da loteria com nome chique. Você não compra ação de empresa inovadora, compra cota de um veículo que cobra taxa para comprar ação de empresa inovadora, com dinheiro emprestado, gerenciado por um comitê que precisa justificar bônus trimestral. Cada camada come um pedaço do retorno. O que sobra para o cotista é o desconto persistente que a Saba acabou de monetizar na saída. O resto é folheto.

Me diz uma coisa, por que esse tipo de produto floresceu justamente entre 2020 e 2022? Porque o banco central americano havia transformado dinheiro em lixo, taxa de juros real negativa, e qualquer coisa que rendesse acima de zero virava obra-prima de engenharia financeira. Inflaram-se ativos, inflaram-se gestoras, inflaram-se ETFs temáticos sobre temas que ninguém entendia. Agora que o custo do dinheiro voltou a existir, a maré baixou, e a gente vê quem estava nadando pelado. A Saba viu primeiro, como sempre vê. A BlackRock continua sorrindo para a câmera, porque para ela o que importa é o saldo da taxa de administração, não a sorte do cotista que entrou achando que estava comprando o futuro.

Tem ainda o detalhezinho político que ninguém comenta. A BlackRock é a empresa que mais empurra agenda regulatória, ESG, critérios não financeiros enfiados goela abaixo dos fundos de pensão, e ao mesmo tempo opera produtos que vendem disrupção tecnológica como milagre. Os dois discursos cabem na mesma mesa porque ambos servem ao mesmo fim, captar ativos sob gestão. A inovação aqui não é tecnológica, é de marketing. E quando um fundo ativista corta a corda, está dizendo na cara dura que o rei do mercado passivo, vez ou outra, monta produto ativo que não anda. A diferença entre os dois é que a Saba avisa com nota de rodapé, e a BlackRock continua emitindo papel novo para substituir o que saiu.

No fim, a lição é a velha. Quando alguém vende sofisticação financeira embrulhada em causa nobre, conte os dedos depois do aperto de mão. Mercado livre não é o problema, o problema é confundir mercado livre com o circo montado por gestoras gigantes que vivem de capturar incentivos regulatórios e taxa sobre patrimônio alheio. A Saba não é heroína de ninguém, é caçadora de arbitragem fazendo seu trabalho. Mas, ao fazer, ela acende a luz sobre o que estava no escuro. O ECAT continua lá, com desconto, com alavancagem e com narrativa. O dinheiro inteligente já saiu pela porta dos fundos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.