O presidente da Abramilho soltou a frase que deveria estar estampada em cada gabinete de Brasília: a safra de milho vai, em breve, superar a de soja. E o detalhe que ninguém da imprensa econômica vai sublinhar é que isso não aconteceu porque algum ministro acordou iluminado, nem porque saiu portaria com carimbo dourado convocando o produtor a plantar mais milho. Aconteceu porque milhões de decisões individuais, tomadas em fazendas espalhadas por Mato Grosso, Goiás, Paraná e Minas, convergiram para o que o preço estava sussurrando há anos. O mercado falou, o produtor escutou, e o resultado é uma revolução silenciosa que coloca o Brasil no topo de uma cadeia global de proteína animal sem precisar de plano nacional nenhum.

Olha, vale lembrar como isso funciona, porque a memória econômica brasileira tem prazo de validade curto. Quando o preço de um grão sobe, ele está carregando informação que nenhum burocrata em Brasília consegue computar, mesmo com mil planilhas e dez consultorias contratadas a peso de ouro. O preço diz, em uma única cifra, o que bilhões de consumidores, criadores de aves, suínos e bois, indústrias de etanol e exportadores chineses querem agora e querem em escala. Nenhum gabinete tem essa informação. Nenhum comitê tem essa informação. Só o sistema de preços, livre para se mover, possui essa inteligência distribuída. E o produtor brasileiro, que ouve esse sussurro melhor do que qualquer outro do planeta, responde plantando segunda safra, investindo em maquinário, ajustando logística.

Quer dizer, o que está acontecendo no milho é o caso de manual do que poderia acontecer em todo setor produtivo se o Estado simplesmente saísse do caminho. O agronegócio brasileiro virou potência mundial não graças à intervenção, mas apesar dela. Cresceu sob carga tributária absurda, infraestrutura logística de país de terceiro mundo, juros de cartão de crédito, insegurança jurídica em terras, ataques regulatórios travestidos de ambientalismo, e ainda assim entrega ao país metade da balança comercial. Imagine o que esse setor faria se tivesse meio Estado em cima, em vez do peso inteiro. Imagine a indústria, o serviço, o pequeno comércio, se recebessem a mesma autonomia que o produtor rural conquistou na marra.

Me diz uma coisa, quem vai colher o lucro político dessa virada? Aposte que será exatamente quem mais atrapalhou. Ministros que jamais pisaram em uma colheitadeira vão aparecer em foto sorrindo com espiga na mão, falando em soberania alimentar e em planejamento estratégico, como se a expansão tivesse saído de algum gabinete climatizado. É o velho ritual do parasita que cavalga o cavalo e depois jura ter sido ele quem correu a maratona. Siga o dinheiro e você verá que a subvenção, o crédito direcionado, o seguro rural subsidiado, tudo isso é migalha comparado ao que o setor paga em ICMS, Funrural, PIS, Cofins, IRPJ, CSLL, frete encarecido por monopólio estatal de ferrovia que nunca foi construída e por porto onde greve é hobby sindical.

E há um detalhe filosófico que precisa ser dito sem rodeio. Toda vez que um país descobre que pode alimentar o mundo, surge imediatamente uma corrente intelectual urbana, com diploma e ressentimento, dizendo que o sucesso é predatório, que o crescimento é vergonhoso, que seria mais nobre produzir menos. É a inveja vestida de virtude. O sujeito que nunca plantou um pé de alface na varanda vem ensinar ao homem que alimenta cento e cinquenta países como ele deveria se sentir culpado pela própria competência. Essa gente confunde abundância com pecado porque, no fundo, despreza o povo que enriquece sem pedir licença ao iluminado de plantão.

A safra de milho ultrapassar a de soja não é número de boletim. É lição de civilização. É a prova viva de que, quando a propriedade é respeitada, o contrato é cumprido e o preço é livre, a abundância surge sem decreto. Toda vez que algum candidato prometer ordenar a economia, controlar cadeias, planejar a produção, lembre desse milho. Ele cresceu enquanto o Estado tropeçava nas próprias botinas. E continuará crescendo, desde que ninguém em Brasília decida salvar o produtor de si mesmo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.