A SAIC, joia da coroa industrial chinesa, chega ao balanço com a cara de quem precisa explicar para acionistas algo que todo mundo no chão de fábrica já sabia há tempos. Vendas combalidas, margens espremidas, concorrência interna feroz vinda das estreantes elétricas, e agora o detalhe que faltava para fechar o quadro: o governo central, atolado em dívida de províncias e em estímulos que não estimulam mais nada, está repensando o tamanho da generosidade com seus filhotes prediletos. Quer dizer, a montadora que foi criada, nutrida, protegida e empurrada pelo Estado durante quatro décadas agora vai ter que provar que sabe andar sem as rodinhas de apoio. E o mercado, esse senhor que não lê discurso de Politburo, está cobrando a fatura no preço da ação.

Olha, o caso da SAIC é manual didático de uma coisa que se repete em todo lugar onde alguém acredita que dá para fabricar campeão nacional por decreto. Você pega uma empresa, blinda contra a concorrência externa, dá crédito subsidiado, garante compras governamentais, casa ela com parceiros estrangeiros em joint ventures obrigatórias para roubar tecnologia, e por trinta anos parece que está funcionando. Aí o mundo muda, os chineses descobriram que o futuro do carro é elétrico e que startup chinesa faz isso melhor e mais rápido que dinossauro estatal, e de repente a SAIC vira aquele primo que ficou velho na casa dos pais. O dinheiro do contribuinte chinês construiu um gigante que não aguenta competição nem dentro de casa.

Me diz uma coisa, quem você acha que pagou essa farra toda? O operário de Chongqing que vê o yuan comprar menos arroz a cada ano, o poupador que recebe juro real negativo no banco estatal, o pequeno empresário que não consegue crédito porque o crédito foi todo para o conglomerado amigo do partido. A conta da política industrial nunca aparece no balanço da montadora, aparece no contracheque de quem nunca pôs o pé numa fábrica de carro. É aquela velha história, o que se vê é o emprego criado na linha de montagem, o pavilhão luminoso na feira de Xangai, o ministro cortando fita. O que não se vê é a empresa privada que não nasceu, a inovação que não aconteceu, o consumidor que pagou caro num carro pior do que poderia ter comprado.

E agora vem a parte interessante. Pequim está com problema fiscal sério, governos locais quebrados, setor imobiliário em colapso lento, e a conta dos estímulos pandêmicos batendo na porta. Quando o sócio oculto começa a apertar o cinto, o campeão nacional descobre que era apenas uma empresa razoável fantasiada de gigante. As ações da SAIC contam essa história em mandarim de Wall Street, caem porque o mercado entende, mesmo sem ninguém dizer em alto e bom som, que o modelo de capitalismo de Estado com aparência de mercado está atingindo o limite matemático da paciência fiscal. Não existe almoço grátis nem em economia planejada, só existe almoço pago por outro.

Vale para a SAIC, vale para a Embraer, vale para qualquer arranjo em que político decide quem é o vencedor antes de o cliente decidir. Toda vez que governo escolhe campeão, o que ele está realmente fazendo é tomar dinheiro de gente produtiva para sustentar gente conectada, e chamar isso de estratégia nacional. Por algum tempo dá certo, ou parece dar certo, porque a conta vai se acumulando em lugares que ninguém olha, dívida pública, inflação reprimida, produtividade estagnada, juro alto eterno. Aí num belo dia o mercado faz a soma e o gigante descobre que é anão de salto alto. A China está descobrindo isso agora com sua montadora preferida, o Brasil descobre isso a cada dez anos e finge que esqueceu no ciclo seguinte.

O teste de resultados da SAIC não é teste de SAIC, é teste do modelo inteiro. E quando o sócio que imprime dinheiro começa a hesitar, o resultado vem em vermelho mandarim.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.