A Sainsbury's, segunda maior rede de mercados da Inglaterra, acaba de avisar acionistas que o lucro deste ano pode derreter porque o conflito no Oriente Médio está empurrando custos para cima e enchendo o consumidor britânico de incerteza. Traduzindo do corporativês para o português, a senhora inglesa que vai comprar pão e leite está pagando a conta de uma guerra que nem sabe exatamente onde fica no mapa, e a rede de supermercados, que vive de margens apertadíssimas, está descobrindo que não tem para onde repassar o aperto sem perder cliente. É a história do século XXI em miniatura, um tiro no Golfo Pérsico sobe o frete do Canal de Suez, o frete sobe o preço do azeite, o azeite sobe a inflação do relatório, e o relatório sobe o juro do Banco da Inglaterra, que por sua vez aperta o financiamento da Sainsbury's. O varejista não está quebrando, está apenas sendo atropelado pela engrenagem que as elites gerenciais do Ocidente passaram trinta anos montando em nome da eficiência.

Quem ouve a manchete pensa que é culpa do Hamas, de Netanyahu, dos houthis, do Irã, de quem quer que esteja conveniente na narrativa da semana. Olha, a guerra é gatilho, não causa. A causa está em casa. É o resultado previsível de décadas de política monetária frouxa somada a uma obsessão ideológica por cadeias produtivas ultralongas, toneladas de azeite espanhol viajando pelo Suez porque alguém em Bruxelas decidiu que produzir alimento na Inglaterra é caipira demais, carregamentos de gás russo, cereais ucranianos, fertilizantes marroquinos, camarão vietnamita, tudo dependendo de que nenhum déspota em lugar nenhum do planeta tenha um mau dia. Montaram um castelo de cartas chamando de globalização e agora fingem surpresa quando alguém sopra.

E a parte que o analista de banco não diz no podcast matinal é a seguinte, quando o supermercado alerta sobre lucro menor, ele está pedindo licença antecipada para repassar preço, e quando repassa preço, quem paga é sempre o mesmo, o trabalhador assalariado que não tem como indexar o contracheque ao Brent. A guerra no Oriente Médio não empobreceu a Sainsbury's, empobreceu o cliente da Sainsbury's, e a rede está simplesmente sendo honesta em avisar que não vai conseguir absorver o golpe sozinha. O lucro que não veio para o acionista é o poder de compra que sumiu da geladeira do consumidor, só muda o lugar onde a perda aparece no balanço da civilização.

Me diz uma coisa, por que ninguém pergunta em voz alta de onde veio, originalmente, o excesso de demanda que torna qualquer choque de oferta um desastre nacional? Veio das trilhões de libras, euros e dólares despejados pelos bancos centrais desde 2008, passando pela farra pandêmica de 2020, passando pelos pacotes verdes de 2022. Quando se cria dinheiro do nada durante quinze anos seguidos, qualquer areia na engrenagem vira pneu furado em estrada de terra. O conflito no Oriente Médio seria um problema administrável numa economia saudável, torna-se catástrofe contábil numa economia esticada até o osso por crédito artificial e por regulação que destruiu a produção doméstica em nome da sigla da moda.

A solução que vai aparecer nos editoriais do Financial Times nos próximos dias é, claro, mais do mesmo, subsídio para o varejo, controle de preço para alimentos básicos, auxílio emergencial para famílias vulneráveis, imposto extraordinário sobre o lucro das petrolíferas. Cada um desses remédios é um gole a mais do veneno que produziu a doença. Subsídio desloca capital do produtivo para o apadrinhado, controle de preço faz desaparecer produto da prateleira, auxílio engorda o déficit que volta em inflação no mês seguinte, imposto sobre energética reduz investimento justamente onde precisa haver oferta. A pilhagem legalizada se chama política pública, e o aplauso vem de quem vai comer a sobra.

O que a Sainsbury's está dizendo, sem perceber, é que o modelo faliu. Não o capitalismo, que continua entregando comida barata onde lhe permitem operar, mas o arranjo específico em que o capitalismo virou refém de burocracia supranacional, moeda fiduciária degradada e geopolítica gerenciada por amadores em Washington e Bruxelas. Enquanto o consumidor britânico não entender que o preço da sua cesta básica é decidido mais em reuniões do Banco Central Europeu do que em escaramuças no Mar Vermelho, vai continuar achando que o vilão é o dono do mercado. O vilão está em terno, não em túnica.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.