O dado saiu com a pompa habitual dos institutos oficiais: salários reais subiram 1,9% em abril no Japão, e os gastos das famílias caíram menos do que os analistas previam. Nas manchetes, virou notícia de recuperação. Nos bastidores, é a confissão envergonhada de que três décadas de estímulo monetário, taxas de juros próximas de zero e impressora rodando para socorrer dívida pública produziram exatamente o que sempre produzem: um povo que ganha mais no papel e gasta menos na vida real porque aprendeu, na carne, que o número do contracheque é mentira contada em iene.

Olha, é preciso ter algum desplante para chamar isso de boa notícia. O salário real só sobe porque a inflação medida desacelerou um pouco, depois de anos em que o japonês viu o preço do arroz, da gasolina e da conta de luz subirem enquanto o Banco do Japão jurava de pés juntos que a meta era estimular o consumo. Estimular o consumo, veja você, é o eufemismo técnico para corroer poupança alheia até que o cidadão, desesperado, gaste antes que o dinheiro derreta. Só que o japonês fez o contrário do previsto pelo manual: segurou a carteira, voltou a poupar, desconfiou da festa. Quem foi enganado por trinta anos não cai no truque do trigésimo primeiro.

E aqui está a piada que ninguém na imprensa econômica tem coragem de contar. O mesmo banco central que imprimiu rios de iene para "combater a deflação" agora se espanta porque o povo, ao receber um aumentinho real, não corre ao shopping. Quer dizer, o planejador desenhou o experimento no quadro-negro, mediu as variáveis, ajustou os parâmetros, e descobriu, com horror, que o sujeito do lado de cá do balcão tem memória, tem família, tem conta de hospital para pagar e não está disposto a servir de cobaia para a teoria da semana. É o conhecimento disperso vingando-se do conhecimento concentrado.

Siga o dinheiro e a comédia fica completa. A dívida pública japonesa beira 260% do PIB, uma das maiores do mundo desenvolvido. Quem financia essa farra? O poupador doméstico, via fundos de pensão, seguradoras e bancos obrigados por regulação a engolir títulos do tesouro com juros ridículos. Ou seja, o trabalhador que viu seu salário real cair durante anos foi, simultaneamente, o financiador involuntário da gastança que destruiu seu poder de compra. Recebeu a fatura duas vezes: uma na inflação, outra no rendimento mixuruca da aposentadoria. E agora pedem que ele agradeça pelo 1,9%.

O detalhe que os economistas de banco fingem não ver é que essa queda menor que o esperado nos gastos não revela confiança recuperada, revela cautela aprendida. O consumidor japonês é o aluno mais bem treinado do mundo na escola dura da intervenção monetária prolongada. Ele sabe que cada repique de salário vem acompanhado de uma conta futura, seja em imposto, seja em nova rodada de inflação, seja em algum imposto sobre consumo que aparecerá fantasiado de "reforma necessária". Poupar virou ato de legítima defesa contra o próprio Estado.

O que o Japão demonstra, em câmera lenta e com legenda em letras garrafais, é que não existe modelo econômico capaz de enganar indefinidamente uma população que sente o preço da cebola subir todo sábado. Os doutores podem ajustar suas equações, os ministros podem anunciar pacotes, os jornais podem celebrar o décimo segundo decimal positivo da pesquisa de rendimento. No fim, quem decide se a economia anda é o cidadão comum, com sua carteira na mão e sua desconfiança bem alimentada. E quando ele decide que prefere o colchão à vitrine, nenhuma política monetária do mundo o demove. Inflação é roubo, e mesmo o ladrão mais polido acaba reconhecido pela vítima.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.