Uma seguradora nórdica, daquelas que ninguém no Brasil conhece direito, acabou de revisar para cima a previsão de lucro operacional de 2026 depois de um primeiro trimestre acima das expectativas. O fato em si seria banal, não fosse o detalhe que ninguém está disposto a sublinhar: a Sampo opera num país de inverno hostil, carga tributária pesada e regulação europeia kafkiana, e ainda assim entrega resultado. Não pediu socorro, não chorou no Banco Central, não foi à imprensa exigir isenção fiscal. Apenas vendeu apólice, precificou risco com competência e devolveu valor ao acionista. Trivial, não? Pois é exatamente essa trivialidade que aqui virou ficção científica.

Olha, quando uma empresa privada, exposta ao vento gelado da concorrência real, eleva projeção de lucro, acontece uma coisa que o burocrata brasileiro detesta: o capital migra para quem produz. O preço da ação sobe, o dividendo é distribuído, o pension fund finlandês paga aposentadoria de gente de carne e osso, e o ciclo se renova sem que nenhum ministro precise convocar coletiva para anunciar "pacote de estímulo". É a tal ordem espontânea que tanto incomoda os engenheiros sociais. Ninguém planejou o lucro da Sampo num gabinete em Helsinque. Milhões de decisões individuais, refletidas em prêmios, sinistros e reservas técnicas, produziram aquele número. E o número, lido friamente, é mais informativo que qualquer relatório do FMI.

Compare isso com o circo doméstico. Aqui, seguradora que dá lucro é tratada como suspeita; banco que dá lucro é convocado a "contribuir mais"; e a Petrobras, sempre ela, dá lucro quando o petróleo sobe e prejuízo quando o governo decide vender combustível abaixo do custo para fingir que controla a inflação. Quer dizer, o lucro virou coisa indecente, exceto quando é da estatal e serve para financiar aventura eleitoral. A diferença entre Sampo e qualquer holding nacional regulada não está na competência dos executivos, está no nível de interferência que cada um sofre. Lá, o Estado fica longe e cobra o imposto combinado. Aqui, o Estado é sócio invisível, fiscal, concorrente e inimigo, tudo ao mesmo tempo, conforme a conveniência da semana.

Me diz uma coisa: por que ninguém pergunta o que aconteceria se as seguradoras brasileiras fossem libertadas da camisa de força regulatória da Susep, do CMN, do Banco Central e dos seis ou sete órgãos que fingem proteger o consumidor enquanto, na prática, protegem os incumbentes contra a concorrência? Resposta óbvia: prêmios cairiam, cobertura aumentaria e novas empresas, talvez até finlandesas, entrariam aqui para disputar mercado. Mas isso atrapalharia o arranjo cordial entre regulador e regulado, aquela troca de cadeiras eternas em que o ex-diretor da agência vira consultor da empresa que ele fiscalizava na sexta passada. O lucro da Sampo é, nesse sentido, uma denúncia silenciosa: mostra o que é possível quando o jogo é razoavelmente limpo.

Há também a parte que ninguém vê, e essa é sempre a mais cara. Cada real de lucro genuíno gerado por uma empresa privada significa capital reinvestido, posto de trabalho mantido, tecnologia de subscrição aprimorada, riscos melhor precificados para a sociedade inteira. Cada real de "lucro" inflado de estatal significa, no fundo, contribuinte pagando duas vezes: uma na conta de luz, outra no imposto que cobre o rombo da próxima aventura política. A seguradora nórdica enriquece silenciosamente seus acionistas, que enriquecem silenciosamente a economia real, que sustenta silenciosamente o sistema previdenciário daquele país sem que ninguém precise gritar slogan em rede nacional. Aqui, gritar slogan virou modelo de negócio, e o resultado está na fila do INSS.

O recado do balanço da Sampo, portanto, não é sobre seguro nem sobre Finlândia. É sobre o óbvio que insistimos em ignorar: economia funciona quando o governo se cala, e quebra quando o governo resolve "ajudar". Enquanto não entendermos isso, continuaremos torcendo para empresas estrangeiras lucrarem para que nossa bolsa, via fundos passivos, capture migalhas do que poderia ter sido produzido aqui. O capital não é patriota, é prudente. E foge de quem o trata como criminoso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.