Vamos ao fato nu. A Sana Biotechnology, empresa listada em bolsa americana e queridinha do setor de terapias celulares, comunicou que um de seus membros do conselho foi reclassificado de uma classe de diretores para outra, com o nobre objetivo declarado de equilibrar o número de assentos entre as classes escalonadas. É isso. Ninguém foi demitido, ninguém foi contratado, nenhum centavo extra foi produzido, nenhuma terapia avançou um milímetro em direção ao paciente. Apenas redesenharam a planilha de quem vota em qual ano. E isso, senhoras e senhores, virou fato relevante.
Me diz uma coisa: por que uma empresa que queima caixa trimestralmente, que vive de promessas de ensaio clínico, que depende de rodadas sucessivas de capital para não evaporar, precisa gastar tempo de conselho, tempo de jurídico e tempo de compliance para reorganizar as classes escalonadas de seus próprios diretores? A resposta honesta é que esse tipo de arquitetura, o famoso conselho dividido em classes que se renovam parcialmente a cada ano, não existe para servir acionistas. Existe para blindar a administração contra a possibilidade desagradável de que alguém de fora, um investidor ativista, um concorrente, um comprador hostil, consiga trocar o comando rapidamente. É cinto de castidade corporativo, e o pudico aqui é o CEO.
Olha, quando você entende que existe uma indústria inteira vivendo às custas dessa engenharia, consultores de governança, escritórios de advocacia especializados, plataformas de proxy voting, conselheiros profissionais que circulam entre boards como aristocratas em bailes do século dezenove, a notícia deixa de ser técnica e vira sociológica. Reclassificar um diretor custa honorários. Os honorários saem do caixa. O caixa vem do acionista minoritário que comprou ação acreditando que o dinheiro iria para pesquisa, para ensaio clínico, para laboratório. Parte dele foi, parte foi para sustentar o teatro de cadeiras musicais que se apresenta como governança corporativa moderna.
Quer dizer, a biotecnologia é um dos setores mais dependentes de capital de risco paciente e de mercado livre funcional do planeta. Nenhum burocrata em Brasília, em Washington ou em Bruxelas consegue planejar quais moléculas vão salvar vidas daqui a dez anos. Só o sistema descentralizado de apostas privadas, com prejuízo real para quem erra e lucro real para quem acerta, consegue atravessar o deserto de uma década entre laboratório e farmácia. E é exatamente esse sistema que se corrompe quando o conselho vira um clube fechado, quando a administração se protege dos próprios donos, quando a retórica do longo prazo serve apenas para adiar a prestação de contas de curto prazo.
Há uma lição antiga, quase trivial, que o comunicado da Sana ilustra sem querer. Toda estrutura criada para "proteger a estabilidade" da gestão acaba protegendo a gestão da realidade. E quando a gestão está protegida da realidade, o custo dessa proteção é pago por quem não pode se proteger: o acionista pulverizado, o paciente que espera a terapia, o pesquisador que vê o orçamento encolher enquanto honorários de conselheiros sobem. Não é teoria da conspiração, é aritmética de companhia aberta.
O mais revelador, no entanto, é a linguagem. "Equilibrar classes de diretores." É o tipo de frase que só existe para não dizer nada enquanto parece dizer algo importante. Tradução honesta seria: "mantivemos o mesmo time, só mudamos o calendário de renovação para manter nosso esquema funcionando." Mas aí não caberia no release, e o release precisa caber no release, porque é dele que vive a ilusão de que algo está acontecendo quando, na prática, o que acontece é que continua acontecendo o de sempre. E o de sempre, nesse mercado, é caro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.