A Sanepar veio abaixo da previsão de receita no primeiro trimestre de 2026 e os analistas de plantão correram para os relatórios como se fosse necessário um doutorado em finanças para entender o óbvio. Trata-se de uma empresa controlada por governo estadual, com tarifa autorizada por agência reguladora cujo orçamento depende do mesmo governo, operando num setor onde o consumidor não pode trocar de fornecedor mesmo que queira. Chamar isso de mercado é uma piada de gosto duvidoso, e atribuir a frustração a fatores conjunturais é tratar o leitor como criança.

Olha, toda vez que uma estatal entrega resultado abaixo do projetado, a narrativa oficial aparece pronta na bandeja: clima atípico, atraso de reajuste, sazonalidade de consumo, pressão de custos. Curioso é que essas variáveis nunca aparecem quando o mesmo balanço vem acima do esperado. Aí, naturalmente, é gestão eficiente, modernização, virtuosismo administrativo. O método é antigo, o sucesso pertence ao governante, o fracasso pertence ao destino. Quem paga a conta dos dois cenários, no fim, é sempre o mesmo cidadão que abre a torneira sem ter sido consultado sobre nada.

Me diz uma coisa, o que se vê numa empresa de saneamento estatal é a tarifa, a placa de obra, o caminhão da concessionária. O que não se vê é o capital que poderia ter sido investido por operadores privados competindo entre si, é a água tratada que não chega às periferias porque a prioridade política mandou ampliar a folha antes da rede, é a inovação tecnológica que não acontece porque o monopolista não tem incentivo para correr atrás de quem não existe. A receita frustrada do trimestre é só a ponta visível de um iceberg de ineficiência aceita como normalidade.

Seguindo o dinheiro, a coisa fica ainda mais reveladora. A Sanepar é caixa eleitoral disfarçada de utilidade pública, fornecedora cativa de empregos comissionados, palco de negociações de cargos em troca de apoio parlamentar e fonte de dividendos que o Tesouro estadual usa para fechar contas que jamais deveriam ter sido abertas. Quando essa engrenagem range, como rangeu agora, o impacto não é apenas no acionista minoritário da bolsa. É no orçamento do estado, que conta com aquele repasse, e no consumidor, que vai ouvir falar em reajuste extraordinário antes do fim do ano.

O modelo de empresa pública listada em bolsa é uma das invenções mais perversas do nosso capitalismo de compadrio. Vende ao investidor a ilusão de governança privada e ao eleitor a fantasia de controle popular, mas entrega o pior dos dois mundos: ineficiência estatal com fachada de mercado. O acionista privado fica refém de decisões políticas, o cidadão fica refém de decisões financeiras, e o gestor fica livre para culpar uns e outros conforme a conveniência da manhã. É um arranjo desenhado para que ninguém seja responsável por nada.

A pergunta honesta, que ninguém quer fazer porque a resposta incomoda, é por que diabos saneamento básico continua sendo monopólio estatal num país que já provou, em todos os setores onde permitiu concorrência, que o privado entrega mais rápido, mais barato e melhor. O marco do saneamento prometeu universalização até 2033 e segue patinando justamente nos estados onde a estatal local é forte demais para ser desafiada. A receita frustrada da Sanepar não é um acidente trimestral. É o sintoma de um modelo que escolheu proteger o monopolista em vez de servir ao usuário, e a conta dessa escolha vai chegar, como sempre chega, no bolso de quem nunca foi consultado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.