O banco espanhol anunciou lucro recorde no primeiro trimestre, e a imprensa econômica reagiu como criança em festa de aniversário, batendo palmas para o gráfico ascendente sem perguntar o óbvio: como é possível que num país com inadimplência alta, crédito travado, juros básicos pelas alturas e classe média espremida até o último centavo, um banco estrangeiro consiga rentabilidade de dois dígitos sobre patrimônio tangível? A resposta está escondida na pergunta. O lucro do banco não desmente a crise do brasileiro, ele depende dela.

Vamos seguir o caminho do dinheiro, que é onde a verdade gosta de se esconder. O Banco Central mantém a taxa básica em patamar estratosférico para combater uma inflação que ele mesmo ajudou a fabricar com anos de expansão monetária e financiamento de gastança fiscal. O Tesouro emite título a juro real obsceno para rolar uma dívida que nenhum brasileiro autorizou contrair. Quem compra esses títulos com fartura? Os bancos. Que ganham na mesa de operação, sem precisar arriscar capital em empréstimo a empresa produtiva, sem precisar avaliar projeto, sem precisar sequer fingir que estão financiando a economia real. É o arranjo mais elegante de transferência de renda do contribuinte para o acionista bancário que a engenharia política já produziu.

E quando o banco resolve emprestar para o cidadão comum, a conta vem com taxa de juros que faria corar agiota de filme italiano. Cheque especial a três dígitos ao ano, cartão de crédito rotativo que faz da família média uma escrava moderna do extrato, financiamento de veículo com spread que em qualquer economia minimamente saudável já teria sido devorado pela concorrência. Concorrência que, claro, não existe, porque o oligopólio bancário brasileiro é protegido por uma muralha regulatória construída tijolo por tijolo ao longo de décadas, com a desculpa nobre da estabilidade sistêmica. Tradução honesta: barreira de entrada artificial que garante reserva de mercado a meia dúzia de instituições.

A meta de quinze por cento de retorno sobre patrimônio tangível anunciada com tanta pompa é o sintoma final do diagnóstico. Em mercado verdadeiramente livre, com entrada de capital estrangeiro sem caprichos do regulador, com fintechs operando sem o cabresto que lhes foi imposto assim que começaram a incomodar, com câmbio que não é instrumento de política industrial disfarçada, esse retorno seria comprimido pela competição em poucos trimestres. Aqui, ele é piso, não teto. E quem paga é sempre o mesmo personagem: o trabalhador que vê seu salário evaporar na inflação, o empresário pequeno que não consegue capital de giro, o aposentado que financia a festa porque seu título público virou o lastro do banquete.

O mais cínico do espetáculo é o vocabulário usado para vesti-lo de virtude. Eficiência operacional, gestão de risco, disciplina de capital, todas palavras nobres da liturgia financeira moderna usadas para descrever o que em qualquer linguagem honesta se chamaria captura institucional. O banco não é mais empresa que compete por cliente, é concessionária de privilégio que precifica o acesso a um sistema desenhado para que ele lucre independentemente do que aconteça com o país ao redor. Crise, bonança, recessão, expansão, tanto faz, o RoTE sobe.

Então, quando o próximo balanço sair com lucro ainda maior, e o próximo, e o seguinte, lembre-se que isso não é prova da pujança do capitalismo brasileiro. É prova exatamente do contrário. Capitalismo de verdade tem falência, tem sangue na rua, tem acionista perdendo camisa quando erra a aposta. O que existe no andar de cima da Avenida Paulista é outra coisa, mais antiga e mais suja: é privilégio rentista vestido de modernidade, é mercantilismo com terno de grife, é o velho pacto entre quem tem o carimbo e quem tem o cofre. O brasileiro paga a conta sorrindo, porque ninguém lhe contou que existia outro modelo possível.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.