Santos recebe o Red Bull Bragantino numa rodada qualquer do Brasileirão, e a manchete pergunta onde assistir, como se a única dúvida razoável diante de uma partida de futebol fosse o canal. Pois bem, a pergunta interessante não é onde assistir, é quem está pagando a conta do espetáculo que você vai consumir de graça no sofá. E a resposta, como sempre, está escondida atrás de três camadas de jargão contábil, isenção fiscal e refinanciamento de dívida tributária que nenhum locutor esportivo tem coragem de mencionar entre um replay e outro.

Olha, o futebol brasileiro é o caso clínico mais perfeito de capitalismo de compadrio que esse país já produziu, e olha que a concorrência é dura. Clube quebra, clube refinancia, clube renegocia, clube vira sociedade anônima, clube recebe injeção de bilionário estrangeiro com bênção da Receita, e a torcida aplaude como se fosse milagre da multiplicação dos pães. Não é. É a velha alquimia de privatizar o lucro e socializar o prejuízo, com um detalhe charmoso, a tradição centenária serve de álibi moral para a operação. Quem ousa criticar é acusado de não amar a camisa, como se amar a camisa exigisse financiar com imposto a incompetência administrativa de meio século.

O Bragantino, esse caso à parte, é a versão refinada do modelo, multinacional de bebida energética compra clube modesto do interior paulista, injeta capital, monta projeto, e de repente vira protagonista. Tudo bem, é dinheiro privado, é risco do investidor, é livre iniciativa, e isso merece respeito. O problema não está aí. O problema está no Santos do outro lado do gramado, instituição venerável que acumulou dívida tributária do tamanho do PIB de uma cidade média e que vai, mais cedo ou mais tarde, bater na porta do Congresso pedindo mais um perdão fiscal travestido de programa de modernização do esporte. Vai conseguir. Sempre consegue.

Me diz uma coisa, por que clube de futebol pode dever bilhão para o INSS, para a Receita, para a Previdência, e o cidadão comum que atrasa três meses de imposto de renda recebe penhora online na conta corrente? Por que o pequeno empresário que não consegue pagar a folha fecha as portas, e o clube que não paga jogador, técnico, cozinheiro e roupeiro continua recebendo cota de televisão como se nada fosse? A resposta é desconfortável, mas é simples, porque o futebol comprou voto, comprou bancada, comprou narrativa, e quem controla a narrativa controla a lei. E quem controla a lei decide quem paga e quem recebe.

O que ninguém aponta, porque dá audiência menor que escalação do time titular, é que cada real de imposto perdoado ao clube é um real a mais cobrado da padaria, do salão de beleza, do motorista de aplicativo. O custo da paixão nacional não desapareceu por encanto, apenas mudou de bolso, do bolso do dirigente incompetente para o bolso do contribuinte anônimo que nem sequer torce para o time beneficiado. É a janela quebrada da economia esportiva, todo mundo vê a beleza do gol no domingo, ninguém vê o pequeno empresário falindo na segunda porque a carga tributária precisa compensar o que o cartola não pagou.

Então assista o jogo, torça, vibre, sofra, é direito legítimo de qualquer um. Mas saiba que o ingresso mais caro desse espetáculo não está vendido na bilheteria do estádio, está embutido em cada nota fiscal que você assina sem ler. O futebol brasileiro não é paixão nacional, é pedágio nacional cobrado com hino e bandeira para parecer nobre. Bola rolando, conta correndo, e o juiz que apita lá no campo é o menos importante dessa partida.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.