A SANUWAVE Health divulgou crescimento de receita no primeiro trimestre de 2026, e a notícia, que passaria batida em qualquer redação preocupada com a próxima coletiva do Planalto, merece exatamente o oposto da indiferença. A companhia faz aparelhos de ondas de choque acústicas para tratar feridas crônicas, aquelas chagas de diabéticos e pacientes vasculares que o sistema público brasileiro empurra com a barriga até virar amputação. Cresceu vendendo. Não cresceu porque um ministro assinou portaria, não cresceu porque ganhou licitação amarrada, não cresceu porque um deputado relator enfiou emenda no orçamento. Cresceu porque médico comprou, hospital usou, paciente sarou e voltou a comprar. É escandalosamente simples, e por ser simples, é exatamente o tipo de coisa que o intelectual de gabinete despreza.

Olha, a beleza do número trimestral é que ele não mente como mente o PIB. O PIB você infla com gasto público financiado por dívida e por imprensa, e na semana seguinte os jornais celebram a "retomada". Receita de empresa é outra coisa. É cliente real pagando preço real por um benefício que ele percebeu como maior do que o dinheiro que tinha no bolso. Cada centavo daquela linha do balanço é um voto secreto e voluntário, dado por alguém que tinha alternativa e escolheu aquela. Nenhuma pesquisa de opinião, nenhuma audiência pública, nenhum conselho consultivo tripartite chega perto da precisão informacional de um pedido de compra assinado.

Quer dizer, repare no contraste doloroso. Aqui, a discussão econômica gira em torno de quantos bilhões o Tesouro vai gastar em programa de transferência, em subsídio para fabricante nacional, em "crédito estratégico" através de banco público que ninguém audita direito. Lá, uma firma de capitalização modesta, longe dos holofotes, monta linha de produção, contrata vendedor, paga royalty, atende cliente e fecha o trimestre no azul. Uma economia produz; a outra redistribui o que outro produziu antes. E os mesmos economistas que aparecem na televisão para explicar por que precisamos de "mais Estado para destravar investimento" jamais explicarão como é que a SANUWAVE destravou sozinha, sem ministério, sem secretaria, sem agência reguladora puxando o pé do empreendedor.

Me diz uma coisa: se um aparelhinho de ondas acústicas consegue prosperar num mercado tão regulado quanto o de saúde americana, atravessando aprovação de agência sanitária, certificação, código de procedimento, reembolso de seguradora, por que diabos um produto similar não nasce e prospera no Brasil? A resposta não está em falta de gênio nacional, e quem diz que é "falta de cultura empreendedora" está dando desculpa de mau perdedor. A resposta está nas duas mil páginas de regulamentação, nos quarenta tributos diferentes, na carga acumulada que faz cada inovador desistir antes do segundo protótipo. O empreendedor brasileiro não morre porque é incompetente. Morre porque o cipoal foi plantado pelo legislador justamente para que ele morra, e quem sobrevive é só quem tem advogado tributário, lobista em Brasília e dinheiro suficiente para esperar três anos por uma licença.

E há uma outra camada, mais sutil, que merece exame. Toda vez que uma empresa estrangeira mostra crescimento orgânico em setor sensível como saúde, surge no mercado nacional o coro pedindo "atração de investimento" via incentivo fiscal, "parceria estratégica" via fundo público, "fomento à inovação" via subvenção do BNDES. Em outras palavras, o sucesso dos outros vira pretexto para mais um arranjo onde o contribuinte paga a aposta e o amigo do rei recebe o lucro. O que se vê é o anúncio bonito da fábrica inaugurada com fita verde e amarela. O que não se vê é o pequeno empresário do interior que pagou imposto a vida inteira para financiar o concorrente que nunca teria viabilidade sem mamata. A conta sempre fecha; só nunca fecha para quem assinou o papel.

A lição do trimestre da SANUWAVE não é sobre dispositivo médico. É sobre o que sempre foi e sempre será: capital privado, risco assumido pelo dono, lucro como sinal de que o serviço foi útil, prejuízo como sinal de que estava no caminho errado. Esse mecanismo singelo, que qualquer feirante entende, é o motor de toda riqueza que a humanidade já produziu. Tudo o mais é encenação, é teatro de poder, é gente vestida de salvador da pátria gastando dinheiro alheio para comprar aplauso próprio. A receita cresceu porque o mercado funcionou; e o mercado funcionou porque, naquele recorte específico, o burocrata ainda não tinha conseguido atrapalhar o suficiente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.