A SATO Technologies, mineradora de bitcoin listada na bolsa canadense, agendou para 22 de junho a assembleia anual de acionistas. O comunicado veio embalado naquele tom asséptico de quem cumpre obrigação regulatória, com pauta padronizada, eleição de conselho, ratificação de auditoria e os de praxe que ninguém lê. O fato em si é burocrático. O interessante é o que o fato esconde.
Toda assembleia de companhia aberta moderna funciona como aquelas missas barrocas onde o padre fala em latim para uma plateia que não entende uma palavra mas se ajoelha no momento certo. O acionista pulverizado recebe o convite, assina a procuração eletrônica, delega o voto ao próprio conselho que deveria fiscalizar, e a ata sai pronta antes mesmo do início da sessão. Chama-se isto de governança corporativa. Deveria se chamar pelo nome verdadeiro, encenação.
No caso específico de uma mineradora de bitcoin, o teatro ganha contornos quase cômicos. A empresa existe para extrair, dentro de um sistema concebido justamente para fugir da intermediação institucional, uma moeda cuja premissa filosófica é a desconfiança radical em assembleias, conselhos e burocratas. E aí monta toda a parafernália corporativa tradicional, conselho, comitês, auditores independentes que de independentes têm o salário que recebem da auditada, para administrar a extração daquilo que nasceu contra exatamente este tipo de estrutura. A contradição não incomoda ninguém porque pagar dividendo em dólar canadense é mais palatável do que viver os princípios libertários do ativo subjacente.
Siga o caminho do dinheiro e o quadro fica nítido. Quem convoca a assembleia já tem o resultado no bolso, porque controla a procuração da maioria flutuante via fundos passivos que votam no piloto automático. Os pequenos acionistas, que somam volume mas não peso, descobrem na ata o que foi decidido sem eles. A remuneração dos executivos passa, o plano de stock options passa, a diluição futura passa, e a ata registra aprovação unânime como se fosse milagre democrático e não geometria de poder.
Vale a pergunta incômoda sobre por que uma companhia que vive da volatilidade do bitcoin precisa marcar com tanta antecedência um ritual cujo desfecho é conhecido. A resposta envolve compliance, regulação canadense, exigências de listagem e toda a tralha que transforma empresa em cartório. Cada formulário preenchido custa caro, cada auditor contratado encarece a operação, cada camada regulatória reduz a margem que poderia ir para o acionista ou para reinvestimento. O custo desta encenação não aparece no release. Está embutido no preço da ação, na diluição silenciosa, no resultado que poderia ser melhor.
No fim das contas, a assembleia de 22 de junho cumprirá seu papel litúrgico, votos serão computados, atas serão assinadas, e o mercado seguirá fingindo que isto é deliberação coletiva. Quem aprendeu a ler entrelinhas sabe que o verdadeiro voto já foi dado quando o investidor decidiu comprar a ação sem ler o estatuto. O resto é cerimônia para inglês ver, ou neste caso, para regulador canadense arquivar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.