Richard Oldfield, o homem que comanda a Schroders e seus 750 bilhões em ativos, apareceu no palco do HSBC Global Investment Summit em Hong Kong nesta segunda-feira para dizer, com aquela serenidade britânica que só o dinheiro dos outros proporciona, que tarifas e tensões comerciais não vão mudar os planos da gestora na Ásia. Que a região continua sendo o grande motor de criação de riqueza. Que o compromisso com Hong Kong, China e Taiwan segue firme. Tudo muito bonito, tudo muito polido, tudo completamente desconectado do mundo real onde o barril de Brent acaba de estourar os 103 dólares depois que Trump anunciou um bloqueio naval ao Irã, onde o trânsito no Estreito de Hormuz caiu de 130 navios por dia para míseros 17, e onde a OCDE já rebaixou as previsões de crescimento global enquanto elevava as de inflação. Mas no salão climatizado do summit, o champanhe continua gelado.
Olha, me diz uma coisa: quando foi que a classe gestora internacional decidiu que guerras são apenas "volatilidade de curto prazo"? Porque é exatamente isso que estão vendendo. Desde 28 de fevereiro, quando EUA e Israel lançaram ataques aéreos contra o Irã e assassinaram Khamenei, o mundo assistiu ao maior choque de oferta de petróleo da história moderna. O Irã fechou o Hormuz, por onde passa um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, e a resposta do mercado financeiro foi fazer exatamente o que sempre faz: primeiro pânico, depois um cessar-fogo frágil, depois CEOs de gestoras aparecendo em conferências para dizer que "os fundamentos de longo prazo permanecem sólidos". Os fundamentos. De longo prazo. Enquanto os Emirados absorveram 800 projéteis iranianos e Dubai teve drones explodindo no skyline, os fundamentos estavam lá, firmes como uma rocha, esperando o próximo PowerPoint da BlackRock.
O que ninguém no palco do HSBC Summit vai dizer é o seguinte: a guerra no Irã não é um evento geopolítico isolado que os mercados "precificam" e seguem em frente. É a consequência direta de décadas de política monetária frouxa que financiou aparatos militares insustentáveis, de expansão de crédito que tornou governos viciados em conflito como ferramenta de distração, e de uma ordem internacional onde o dólar como moeda de reserva permite que Washington imprima o custo das suas aventuras bélicas e distribua a conta para o resto do planeta via inflação. O petróleo subiu 50% desde o início do conflito. Isso não é "choque de oferta", isso é o preço real da energia quando você remove a ilusão monetária que mantinha tudo artificialmente barato. O ouro a 4.778 dólares a onça não é "flight to safety", é o termômetro que mostra a febre real do sistema. Quando o ativo que não rende nada sobe dessa forma, o que está sendo dito é que todos os outros ativos estão sendo corroídos por dentro.
Quer dizer, o cessar-fogo anunciado em 8 de abril, esse que vale até 22 de abril e que ambos os lados já estão violando, é tratado nos corredores de Hong Kong como se fosse o fim do problema. Não é. É a pausa que antecede a próxima escalada. Itália, Espanha e Grécia recusaram participar da coalizão naval americana, e Trump respondeu ameaçando cortar comércio com a Espanha. A França e a Alemanha mudaram de postura só depois que seus soldados foram atingidos. O Reino Unido cedeu bases aéreas e mandou um destróier. O que se vê é uma aliança ocidental rachada tentando manter a aparência de coesão enquanto cada país calcula, em silêncio, quanto vai custar essa conta. E a conta é sempre a mesma: paga o contribuinte. O soldado morre, o petróleo sobe, o gestor de fundo faz hedge, o cidadão comum enche o tanque a um preço que corrói o salário. O ciclo é tão velho quanto a guerra, e tão previsível quanto o discurso otimista que vem depois.
O Nikkei caiu quase 1%, o KOSPI idem, e o sell-off global não dá sinais de arrefecer. Mas o mais revelador não são os números, é o comportamento. Enquanto o mundo real lida com inflação importada, cadeias de suprimento despedaçadas e o risco concreto de que o Hormuz volte a fechar em oito dias quando o cessar-fogo expirar, os grandes gestores se reúnem em Hong Kong para falar de "oportunidades na Ásia" e "crescimento de riqueza na região". Quer dizer, a riqueza de quem? Porque o trabalhador asiático que depende de petróleo importado para ir ao trabalho não foi convidado para o summit. O aposentado europeu cujo fundo de pensão está derretendo também não. A única riqueza que cresce em tempos de guerra é a de quem sabe se posicionar antes do tiro, e coincidentemente, são exatamente essas pessoas que estão nos painéis. O resto que se aqueça com os "fundamentos de longo prazo".
No fim das contas, a cena de Hong Kong é a metáfora perfeita do nosso tempo: o prédio está pegando fogo, o alarme de incêndio está tocando, e no último andar, um grupo de homens de terno discute com tranquilidade a melhor posição para observar as chamas. A guerra no Irã não é um cisne negro; é o resultado previsível de governos que gastam o que não têm, imprimem o que não podem e atacam o que não deveriam, enquanto transferem o custo para gerações que ainda não nasceram. E quando a conta chegar, e ela sempre chega, os mesmos CEOs que hoje sorriem em Hong Kong vão aparecer na televisão para dizer que ninguém poderia ter previsto. Poderia sim. Mas prever não dá comissão de gestão.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.