Screen Holdings, aquela empresa que noventa e nove por cento dos jornalistas econômicos brasileiros nunca ouviram falar, acabou de mostrar margens sólidas no quarto trimestre e sinalizou crescimento contínuo na divisão de equipamentos para semicondutores. Traduzindo para quem só lê manchete, uma das poucas companhias do mundo capazes de fornecer máquinas de limpeza de wafers, etapa sem a qual nenhum chip moderno existe, segue faturando bem enquanto Estados Unidos, União Europeia, Japão e Coreia gastam centenas de bilhões em subsídios para "trazer a indústria de volta". Volta de onde, exatamente, se o gargalo continua na mesma esquina de Quioto?
O detalhe que escapa do release oficial é o mais saboroso. Cada dólar de margem que essa empresa embolsa é, em parte, dinheiro do contribuinte americano travestido de incentivo do CHIPS Act, dinheiro do alemão travestido de fundo europeu de soberania tecnológica, dinheiro do japonês travestido de estímulo doméstico. O Estado anuncia que vai "garantir a cadeia de suprimentos" e o que acontece de fato é uma transferência de renda monumental do bolso do cidadão médio para o caixa de um oligopólio asiático que já era lucrativo antes da gritaria geopolítica. Siga a nota fiscal e você encontra sempre o mesmo desenho, contribuinte paga, lobista comemora, ministro corta a fita.
Há aqui uma lição que a turma do planejamento industrial finge não enxergar. Ninguém em Washington, Berlim ou Brasília sabe fabricar uma máquina de limpeza criogênica de wafer. Esse conhecimento está disperso em milhares de engenheiros, fornecedores, fábricas de componentes e décadas de tentativa e erro concentradas em pouquíssimos lugares do mundo. Nenhum decreto, nenhum subsídio bilionário, nenhum comitê interministerial cria do nada o que levou quarenta anos para amadurecer no mercado. Você pode comprar a máquina, pode atrair a fábrica, mas não pode legislar competência técnica. O preço do chip vai subir, a fila vai continuar, e os resultados financeiros de Tóquio vão seguir gordos.
O leitor atento percebe a contradição. Os mesmos governos que passam o dia denunciando "concentração de mercado" estão alimentando, com dinheiro alheio, exatamente a concentração que dizem combater. ASML na Holanda, TSMC em Taiwan, Tokyo Electron e Screen no Japão, Applied Materials nos Estados Unidos. É essa meia dúzia que define quem fabrica chip no planeta, e cada novo pacote de "soberania" só engorda esse clube fechado. Mercado livre de verdade gera mil pequenos competidores, capitalismo de compadrio gera cinco gigantes blindados. Adivinhe qual modelo está sendo construído com a sua nota fiscal.
Para o Brasil, que assiste a tudo isso da arquibancada enquanto discute se semicondutor nacional vai sair do papel pela décima vez em vinte anos, o recado é cristalino. Não existe atalho industrial, não existe ministério que invente cadeia produtiva, não existe BNDES capaz de comprar trinta anos de aprendizado tácito. O que existe é mercado, propriedade segura, tributação razoável e contrato que se cumpre. Onde isso prospera, semicondutor brota. Onde reina a fantasia do planejador iluminado, brota apenas relatório de comissão e foto de inauguração de fábrica que nunca produz nada.
A margem sólida da Screen Holdings, no fim das contas, é o boletim escolar do intervencionismo ocidental. Cada ponto percentual a mais no lucro dela é um ponto percentual a menos na inteligência das políticas industriais que prometem o impossível. Chip não nasce de canetada, nasce de liberdade econômica e tempo. Quem não tem nenhum dos dois, paga caro e ainda agradece.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.