O ritual se repete com a regularidade de um relógio suíço. Toda vez que o orçamento do Pentágono precisa de uma injeção, aparece um secretário de Defesa com cara grave anunciando que os bárbaros estão às portas. Desta vez o bárbaro é Pequim, o palco é uma cúpula de aliados, e o recado vem embrulhado em retórica de "responsabilidade compartilhada". Quer dizer, compartilhada na conta; o comando, claro, segue em Washington. Os Estados Unidos descobriram, com atraso de duas décadas, que financiar guerras no Oriente Médio enquanto a China construía porta-aviões talvez não tenha sido a alocação mais inteligente de capital.
Olha, o que está em jogo não é a segurança do mundo livre, é a sobrevivência financeira de um arranjo. Os EUA acumulam uma dívida que beira o impagável, gastam mais com juros do que com a própria defesa, e ainda precisam sustentar centenas de bases espalhadas pelo planeta. A matemática não fecha. Então inventa-se uma narrativa de ameaça existencial para convencer o contribuinte alemão, o japonês e o sul-coreano a bancarem o que o americano não consegue mais pagar sozinho. É o modelo do síndico que pede vaquinha no condomínio porque torrou o caixa em festas que ninguém pediu.
Siga o dinheiro e a fantasia se desmonta. Quem ganha quando aliados aumentam gastos militares? As mesmas cinco ou seis empreiteiras americanas que dominam o mercado global de armamento, com seus lobistas instalados permanentemente nos corredores do Capitólio e suas portas giratórias bem azeitadas entre generais aposentados e conselhos de administração. O "fortalecimento da aliança" é, na prática, transferência compulsória de riqueza do contribuinte estrangeiro para o acionista do complexo industrial-militar. A China serve de bicho-papão útil; sem ela, seria preciso inventar outro.
Isso não significa que Pequim seja inofensiva, nem que o Ocidente deva desarmar diante de uma ditadura que esmaga uigures e ameaça Taiwan. A questão é outra, e mais incômoda: a expansão militar chinesa só foi possível porque o próprio Ocidente passou trinta anos transferindo tecnologia, abrindo mercados e financiando o crescimento do Partido Comunista em nome do livre comércio com quem não tem nada de livre. Os mesmos que hoje pedem para gastar mais em defesa contra a China são os herdeiros políticos dos que enriqueceram vendendo a corda com a qual agora dizem que serão enforcados. Caráter se mede pelas ações, não pelos discursos em cúpulas.
O cidadão europeu já desconfia que algo está errado. Pagou décadas de impostos altíssimos sob a promessa de welfare generoso, viu o welfare encolher, a indústria emigrar, a energia ficar impagável depois das sanções suicidas contra a Rússia, e agora ouve que precisa apertar ainda mais o cinto para comprar mísseis americanos. A conta nunca para de chegar, e quem assina embaixo nunca é quem decide. Chama-se isso de aliança quando dá certo e de servidão quando o disfarce cai.
No fim, a pergunta que ninguém faz na coletiva é a única que importa. Se a ameaça é tão urgente, por que o próprio governo americano não corta os trilhões que torra em programas sociais inúteis, agências regulatórias parasitárias e guerras culturais financiadas pelo Tesouro, e redireciona o dinheiro para a tal defesa? A resposta é simples e constrangedora: porque é mais fácil pedir o dinheiro do vizinho do que enfrentar o próprio inchaço. Império que terceiriza a própria defesa já não é império, é cobrador.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.