A Select Harvests, gigante australiana da amêndoa, fechou o primeiro semestre fiscal de 2026 com lucro disparando, preço da commodity em alta, exportação a todo vapor e investidor sorrindo na bolsa de Sydney. Não há mistério nenhum no resultado. A Austrália produziu uma safra recorde, o mundo continua comendo amêndoa em ritmo crescente, e os californianos, antigos donos absolutos do mercado, vêm perdendo competitividade por uma combinação de seca, custo trabalhista inflado e regulação ambiental que transformou cada hectare plantado em processo administrativo. Sobrou para quem produz. E quem produz, no caso, é uma empresa privada operando num país que ainda lembra o que significa deixar o produtor trabalhar.

Repare na engenharia silenciosa do sucesso. Não houve plano quinquenal de fomento à amendoicultura, não houve secretaria nacional da castanha, não houve linha de crédito subsidiada do banco estatal australiano para salvar a indústria. Houve apenas um cálculo simples feito por milhares de agentes independentes: existe demanda, existe terra, existe água, existe logística portuária funcional, então vamos plantar. Foi a soma dessas decisões dispersas, cada uma tomada por quem conhece sua própria realidade, que produziu o resultado agregado que agora aparece no balanço. Nenhum burocrata em Camberra teria a menor condição de calcular o que esses produtores calcularam sozinhos.

Agora vire a câmera para o Brasil de 2026 e observe o contraste obsceno. Temos clima superior ao australiano em metade do território nacional, temos terra disponível em quantidade que faria qualquer fazendeiro de Victoria chorar de inveja, temos mão de obra abundante e barata. E temos, em compensação, uma estrutura tributária que cobra imposto sobre insumo, imposto sobre transporte, imposto sobre venda interestadual, imposto sobre exportação travestido de contribuição, mais a papelada infinita do licenciamento ambiental, mais o sindicato rural, mais o INCRA, mais o IBAMA, mais a fiscalização sanitária criada para proteger o consumidor e que na prática protege o concorrente já instalado. O resultado dessa orgia regulatória é previsível: o produtor brasileiro não compete, sobrevive.

E aqui aparece a parte que ninguém quer ver. O dinheiro que o agricultor australiano embolsa este semestre é o dinheiro que o agricultor brasileiro deixou de embolsar porque alguém, em algum gabinete climatizado de Brasília, decidiu que sabia melhor onde alocar capital, terra e esforço humano. Cada decreto de proteção ambiental sem critério técnico, cada nova exigência fitossanitária criada para favorecer um lobby específico, cada centavo de subsídio extraído via imposto para financiar uma cultura politicamente conveniente, tudo isso tem custo invisível. O custo é a fazenda que não nasceu, a exportação que não aconteceu, o emprego rural que virou bolsa assistencial na periferia urbana. Mas o emprego que não existe ninguém vê. O subsídio que aparece no jornal, esse sim, todo mundo aplaude.

A história econômica é monótona nesse ponto e quem se dá ao trabalho de lê-la sabe o roteiro de cor. Países que deixam o produtor produzir enriquecem. Países que tratam o produtor como suspeito a ser fiscalizado, controlado, taxado e reeducado empobrecem. A Austrália não tem nada de mágico, tem apenas menos burocrata por hectare. A Califórnia perdeu a liderança não por causa do clima, mas por causa do governo da Califórnia, que transformou a água num bem racionado por comitê e a folha de pagamento num campo minado jurídico. O Brasil poderia ser a Austrália dos trópicos. Escolheu ser a Califórnia bolivariana.

Enquanto o investidor australiano comemora dividendo, o brasileiro espera o próximo pacote fiscal para descobrir qual setor produtivo será sacrificado desta vez no altar do equilíbrio orçamentário que nunca chega. A amêndoa não tem ideologia, mas o resultado dela tem. Riqueza é onde se deixa nascer. Pobreza é onde se decreta como ela deve ser distribuída.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.