Joseph Aoun subiu ao microfone para anunciar, com a dignidade de estadista, que o Líbano não cederá território em nenhum acordo futuro. Bonito. Muito bonito. Só tem um detalhe inconveniente que os correspondentes educados preferem não mencionar: o governo libanês, há décadas, não controla o território que diz não estar disposto a ceder. Quem manda no sul do país é uma milícia armada financiada por Teerã, com arsenal superior ao do exército nacional e política externa própria. Aoun pode jurar de pés juntos que não abrirá mão de um metro quadrado, mas seria preciso que ele, antes, recuperasse esse metro quadrado de quem o tomou. A soberania declarada num palanque é a mais barata das mercadorias políticas, e o Líbano vende essa mercadoria há tanto tempo que já virou atacadista.

Olha, existe uma lei silenciosa que governa todos os países que se equilibram entre a retórica e a realidade: quem perde a soberania monetária perde, pouco depois, a soberania territorial. O Líbano é o exemplo perfeito e didático dessa regra. A libra libanesa evaporou numa das maiores desvalorizações da história recente, o sistema bancário confiscou depósitos da própria população num calote travestido de reestruturação, e a inflação devorou a poupança da classe média como um cupim diligente. Quando o Estado deixa de honrar contratos com seu próprio povo, ele já abdicou, na prática, da autoridade moral para honrar fronteiras com potências estrangeiras. A imprensa internacional chama isso de crise econômica. O nome correto é outro: é o preço do intervencionismo monetário levado às últimas consequências, com o governo imprimindo, endividando e subsidiando até que a realidade cobrasse a conta inteira, de uma vez só, na cara do trabalhador que foi ao caixa sacar as próprias economias e descobriu que não havia economia nenhuma ali.

Me diz uma coisa: como é que um país que não consegue garantir energia elétrica por mais de quatro horas por dia pretende garantir integridade territorial? Como é que um Estado que depende de transferência de diáspora para pagar servidor público terá estatura diplomática para impor limites a vizinhos com exércitos profissionais e economia funcional? A conversa de não ceder território soa nobre nos ouvidos desatentos, mas quem segue a trilha do dinheiro entende imediatamente que se trata de um recado para consumo doméstico, para acalmar a base política que sustenta o arranjo de poder interno, e de uma jogada de cena diante dos padrinhos externos que financiam tanto o governo quanto a milícia que rivaliza com ele. O dinheiro iraniano entra pela milícia. O dinheiro saudita e ocidental entra pelo governo. O povo libanês paga a conta dos dois lados, e ainda recebe a bênção de ouvir discursos sobre dignidade nacional proferidos por quem não dignifica coisa nenhuma.

A história recente do Oriente Médio é implacável com os Estados que confundiram soberania com slogan. A Síria gritou soberania enquanto o regime dependia de mercenários russos e conselheiros iranianos para não cair. O Iraque entoa soberania enquanto milícias pró-Teerã atacam bases americanas dentro do próprio território sem que Bagdá consiga impedir. O Iêmen tem um governo reconhecido pela ONU que mal controla um porto. O Líbano, nesse clube melancólico, é o sócio mais antigo e o mais verboso. Cada discurso de Aoun é um exercício de nostalgia por uma autoridade que o Estado libanês perdeu em parcelas, ao longo de meio século, entre guerras civis, colapsos monetários, assassinatos políticos e a aceitação silenciosa de que o monopólio da violência, aquela coisa básica que define um Estado, foi terceirizado para uma organização que responde a uma teocracia estrangeira.

Existe, e isso é o mais interessante, uma lição universal nesse teatro libanês, e ela vale para qualquer democracia que esteja tentada a trocar liberdade econômica por controle estatal em nome de alguma emergência conveniente. O Estado que infla moeda, que confisca poupança, que subsidia clientelas, que regula cada canto da vida produtiva, termina invariavelmente no mesmo lugar: fraco por dentro, dependente por fora, retórico no palanque e impotente na realidade. A soberania não é um grito, é um saldo. É o que sobra depois que o governo pagou suas contas sem trapacear com a impressora, cumpriu contratos sem confiscar depósitos, e garantiu ordem sem terceirizar força para milícias ideológicas. Quando esse saldo zera, todo o resto vira folclore, e o presidente libanês, ao declarar que não cederá território, está apenas narrando em tempo real o folclore da própria decadência, com a convicção melancólica de quem ainda acredita que palavras sustentam fronteiras.

Com informações da Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.