Olha, abriu a semana e os índices americanos sobem timidamente, os jornais embalam o pregão com aquele vocabulário monótono de "cautela diante dos balanços", e ninguém para para perguntar a coisa óbvia: por que diabos uma alta de meia dúzia de pontos virou notícia? Virou porque o mercado está paralisado esperando o próximo sinal do banco central, e essa paralisia disfarçada de prudência é o retrato fiel de uma economia que esqueceu como funcionar sem tutela monetária.
Quem acompanha a sequência sabe o roteiro de cor. Inflam-se os múltiplos com juro artificialmente baixo, infla-se a expectativa de lucro com recompra de ações financiada por dívida, e quando a temporada de balanços chega, o investidor reza para que o resultado contábil justifique o preço que já foi pago meses antes. É a velha cobra que come o próprio rabo, mas com terno de Wall Street e gravata de Davos. O que se vê é a alta. O que não se vê é a poupança alheia sendo corroída pela inflação que financiou esse circo todo.
E me diz uma coisa, alguém ainda acredita que os preços dessas empresas refletem produtividade real? Boa parte das gigantes da Nasdaq vive de fluxo de caixa futuro descontado a uma taxa que o Federal Reserve pode mexer numa quarta-feira qualquer. Quer dizer, a fortuna de milhões de aposentados depende menos do esforço de engenheiros e empreendedores e mais do humor de um comitê de doze pessoas reunidas em Washington. Isso não é capitalismo, é planejamento central com fachada de mercado livre.
O detalhe que escapa do noticiário é onde o dinheiro foi parar. Cada ciclo de expansão monetária dos últimos quinze anos engordou os mesmos balanços, as mesmas tesourarias, os mesmos fundos que financiam campanhas e consultorias regulatórias em Washington. O contribuinte americano paga o pato via inflação, o aposentado europeu paga via juro real negativo, e o brasileiro paga via dólar que não para de subir porque a festa lá fora terceiriza ressaca pra cá. A enxurrada de liquidez tem destinatário, e ele não mora em Cleveland nem em Detroit.
A temporada de balanços vai trazer o ritual de sempre. Empresa que bate expectativa rebaixada na véspera vira manchete heroica, empresa que decepciona ganha desculpa cambial ou geopolítica, e o índice fecha no positivo porque os algoritmos foram programados para comprar na primeira derivada da boa notícia. Enquanto isso, o pequeno investidor lê que "o mercado reagiu bem" e conclui que tudo está sob controle. Não está. Nunca esteve. O controle é a própria ilusão que sustenta o castelo.
A lição que ninguém quer aprender é que economia saudável não precisa torcer por cada vírgula de comunicado de banco central. Quando o pregão respira pela boca esperando o próximo afrouxamento, a doença já está instalada faz tempo. A leve alta de hoje é só o paciente sorrindo entre as doses de morfina, e o médico, sempre o mesmo médico, recusando a única receita que funcionaria, que é parar de medicar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.