A agência de classificação de risco elevou a perspectiva da Parker-Hannifin com base em desempenho sólido, e a notícia passou quase em silêncio na imprensa econômica brasileira, que prefere as manchetes barulhentas sobre auxílio emergencial, gastança eleitoral e os malabarismos contábeis que tentam disfarçar o rombo nas contas públicas. Pois é justamente essa indiferença que merece atenção. Uma empresa que existe desde 1917, que atravessou duas guerras mundiais, uma Grande Depressão, dezenas de crises monetárias e a invenção e morte de pelo menos três utopias coletivistas, continua entregando resultado por uma razão simples, ela produz algo que outras pessoas voluntariamente querem comprar pelo preço que ela cobra. Toda a teoria econômica séria cabe nessa frase.

Olha, repare no contraste. Enquanto a Parker-Hannifin fabrica válvulas, sistemas hidráulicos, componentes aeroespaciais e mil outras peças que mantêm aviões no ar, fábricas funcionando e tratores arando, os tesouros nacionais do hemisfério ocidental estão ocupados imprimindo dinheiro para financiar programas que ninguém pediu, subsidiar indústrias que ninguém quer e socorrer bancos que jamais deveriam ter sido socorridos. A elevação da perspectiva pela agência não é prêmio, é constatação. É o reconhecimento técnico de que existe diferença ontológica entre quem cria valor e quem apenas redistribui o que outros criaram, ainda que essa diferença tenha sido propositalmente embaçada nas últimas décadas pela retórica do bem-estar social.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que algum governo recebeu upgrade de perspectiva sem que isso envolvesse manobra política, pressão diplomática ou cálculo geopolítico? A nota de crédito de uma empresa privada é radiografia honesta porque ela não tem como confiscar receita do contribuinte para fechar o balanço, não tem banco central amigo para monetizar prejuízo, não tem maioria parlamentar para reescrever a lei quando a contabilidade aperta. Empresa que mente sobre números quebra. Estado que mente sobre números reelege ministro da fazenda. Toda a sofisticação da macroeconomia moderna foi construída para esconder essa assimetria grotesca.

O que sustenta uma companhia industrial centenária não é genialidade gerencial, embora ela exista, nem proteção estatal, embora vez ou outra apareça. É a disciplina implacável do cálculo econômico real, aquela coisa que só pode existir onde há preços formados livremente, propriedade privada respeitada e contrato que vale o papel em que foi escrito. Sem esses três pilares, nenhuma planilha do mundo consegue dizer se uma decisão de investimento faz sentido ou é desperdício puro. Por isso países que sabotam esses pilares produzem estatais deficitárias, campeões nacionais que só são campeões porque o adversário foi proibido de competir, e ciclos eternos de boom artificial seguido de quebradeira generalizada.

Há uma lição moral escondida nessa notícia técnica, e ela incomoda porque contradiz o catecismo dominante. A riqueza não brota do decreto presidencial, não é fabricada na mesa do tesouro, não emerge da boa intenção do legislador. Ela é resultado paciente de gente que acorda cedo, organiza capital, contrata trabalhadores, assume risco, paga fornecedores, atende clientes e faz isso por décadas a fio. A elevação da perspectiva é apenas o termômetro frio registrando que esse processo, mesmo sufocado por regulação crescente e tributação confiscatória, ainda funciona quando deixam funcionar. Imagine o que seria se deixassem mesmo.

Resta a pergunta que ninguém na imprensa econômica brasileira terá coragem de fazer. Por que o país que poderia ter cem Parker-Hannifin's, com seu mercado interno gigantesco, sua base industrial herdada de meio século de esforço e seus recursos naturais invejados por todo o planeta, produz em vez disso uma sucessão de empresas que dependem de BNDES, isenção fiscal, reserva de mercado e desonerações setoriais para sobreviver? A resposta está nos mesmos lugares de sempre, na complacência intelectual que aceitou a tese de que o Estado sabe mais que o empreendedor, na cultura que prefere o privilégio à concorrência, no eleitorado que vota em quem promete proteção contra o futuro em vez de em quem oferece liberdade para construí-lo. Empresa de cento e nove anos não vira centenária por acaso, e país atrasado não atrasa por azar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.