A S&P Global Mobility anunciou uma plataforma gratuita de gestão de taxas, e o setor recebeu a notícia com o entusiasmo de quem acabou de ganhar a chave de um cofre. Quer dizer, uma das maiores agregadoras de dados do planeta resolveu, por pura bondade cívica, simplificar a vida tributária de montadoras, concessionárias e operadores de frota. Olha, quando alguém que vende informação por preço de ouro começa a distribuir ferramenta sem cobrar nada, a pergunta que importa não é o que a ferramenta faz, é o que ela coleta enquanto faz.
Existe uma diferença abissal entre o que se vê e o que não se vê neste tipo de oferta. O que se vê é o software bonito, a interface limpa, a promessa de eficiência, o alívio do compliance officer que vai dormir mais cedo. O que não se vê é o fluxo silencioso de dados sensíveis subindo para os servidores da provedora, alimentando modelos preditivos, refinando dashboards que serão vendidos depois aos próprios bancos, fundos e seguradoras que negociam contra os clientes que confiaram seus números à plataforma. O contribuinte virou matéria-prima, e nem desconfia.
Repare na arquitetura do arranjo. Cada montadora que adota a ferramenta entrega, sem perceber, o mapa fiscal da própria operação, a estrutura de custos, a margem por região, a sensibilidade a mudanças regulatórias. Multiplique isso por centenas de empresas e você tem o oráculo definitivo do setor automotivo global, construído gratuitamente pelas próprias vítimas que pagarão depois para consultar o relatório que descreve suas próprias entranhas. É a janela quebrada da era digital: o usuário acredita estar economizando licença de software e está financiando a inteligência que o domesticará amanhã.
Há ainda o detalhe delicioso de a plataforma surgir exatamente no momento em que governos do mundo inteiro multiplicam taxas, tributos, contribuições e regulações ambientais sobre o setor automotivo como se castigar fabricantes fosse hobby de fim de semana. Quanto mais complexa a teia tributária, mais indispensável fica o intermediário que promete decifrá-la. Não é por acaso. O Estado cria o labirinto, o consultor vende o mapa, e o produtor paga as duas pontas com sorriso de quem está sendo ajudado. Capitalismo de compadrio em formato SaaS.
Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que existe almoço grátis em qualquer canto deste mercado? A gentileza corporativa, quando vem embrulhada em comunicado de imprensa, é sempre cálculo, nunca caridade. Quem controla o dado controla o preço, quem controla o preço controla o mercado, e quem controla o mercado dispensa concorrência porque já a comprou antes mesmo de ela nascer. A plataforma gratuita de hoje é o monopólio informacional de amanhã, construído tijolo por tijolo com a colaboração entusiasmada das próprias presas.
O conselho de quem ainda enxerga é simples e antigo: desconfie do presente, ainda mais quando vem de grego que vende análise de risco. A liberdade econômica não se perde por decreto, se perde por conveniência, uma planilha gratuita por vez, até o dia em que descobrimos que tudo o que sabíamos sobre nosso próprio negócio já estava melhor catalogado num servidor que não nos pertence.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.