Um estudo publicado esta semana demonstra que indivíduos com disposição otimista diante da vida apresentam redução de pelo menos 15% no risco de desenvolver demência. Quinze por cento. Por ter uma perspectiva positiva da existência. Isso, segundo pesquisadores que provavelmente passaram anos e milhões em financiamento público para confirmar o que qualquer padre, rabino ou avó mediterrânea poderia ter dito de graça numa tarde de domingo. A ciência, quando finalmente chega onde a tradição sempre esteve, vem com a solenidade de quem descobriu a roda.
Quer dizer, não é que o estudo seja inútil. É útil, sim, dentro dos limites do que a metodologia científica contemporânea consegue fazer: medir, quantificar, publicar, gerar manchete. O problema não é o estudo em si, é o espanto coletivo que ele provoca, como se a ideia de que o estado interior de um ser humano afeta sua saúde fosse uma novidade do século XXI. Civilizações inteiras construíram sistemas filosóficos, religiosos e práticos inteiros em torno desta verdade. A medicina grega já distinguia entre doenças do corpo e doenças da alma, e sabia que uma contaminava a outra. Demorou dois milênios e um formulário de aprovação ética para a ciência moderna concordar.
Olha, o que este estudo revela, além do dado clínico em si, é um problema estrutural de como a sociedade contemporânea trata a saúde mental. Vivemos num ecossistema cultural, midiático e governamental que lucra com a ansiedade. A indústria farmacêutica cresce quando a população está doente, não quando está bem. A mídia vende audiência com medo, não com serenidade. O Estado expande seu poder quando o cidadão é dependente e angustiado, não quando é autônomo e confiante. Neste arranjo, o otimismo não é apenas uma virtude pessoal, é um ato de resistência contra um sistema inteiro que tem incentivos financeiros e políticos para cultivar o oposto.
Me diz uma coisa: quando foi a última vez que você viu uma campanha governamental de saúde pública centrada em gratidão, propósito, vínculos comunitários e fé? Nunca, porque isso não vende remédio, não cria cargo de gestor de saúde mental e não justifica orçamento ministerial. O que se vende é o tratamento, nunca a prevenção que não passa pelo caixa de ninguém. O custo invisível desta equação é imenso: populações inteiras, especialmente os mais velhos, bombardeadas com notícias catastróficas, isoladas pela atomização social promovida pelo Estado assistencialista que destruiu as redes orgânicas de família e comunidade, e agora surpreendentemente apresentando taxas crescentes de demência e declínio cognitivo. A cadeia causal não é complicada, só é inconveniente para muita gente.
A tradição não errou aqui. O que as grandes civilizações chamavam de virtude, de temperança, de esperança teologal, de equanimidade estoica, de gratidão como prática diária, a ciência agora chama de "perspectiva positiva associada à redução de biomarcadores de inflamação neural". A embalagem mudou, o conteúdo é o mesmo. E o conteúdo diz o seguinte: a maneira como você habita sua própria mente tem consequências físicas mensuráveis no longo prazo. Isso era ensinado em família, em paróquia, em comunidade. Quando o Estado substituiu estas instituições por seus próprios programas, substituiu também a sabedoria transmitida por protocolos gerenciados, e o resultado está nos dados epidemiológicos de qualquer país do mundo ocidental desenvolvido.
O estudo é bem-vindo. Que venham mais. Mas que alguém também tenha a honestidade de perguntar por que precisamos de estudos para lembrar o que perdemos quando decidimos que o Estado era mais confiável do que a tradição. Uma civilização que precisa de um paper científico para redescobrir que o modo como você enfrenta a vida importa é uma civilização que esqueceu muito mais do que pode imaginar.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.