A jogada é antiga, mas a embalagem é nova. A ServiceNow expandiu sua plataforma AI Control Tower com mais recursos de governança, monitoramento e compliance para agentes de IA, e o anúncio foi recebido com a reverência de quem assiste a um milagre. Quer dizer, a mesma empresa que empurra agentes autônomos para dentro de cada departamento corporativo agora oferece, magnanimamente, a ferramenta para vigiar esses agentes. É como o fabricante de fechaduras que também vende o gazua e, no fim do mês, o seguro contra arrombamento. Três faturas, um fornecedor, zero constrangimento.

Olha, ninguém precisa ser cínico profissional para enxergar o arranjo. O discurso oficial fala em "responsabilidade", "transparência", "governança ética da IA", todo aquele vocabulário higienizado que serve para esconder o fato bruto: o que está sendo vendido é dependência. Cada nova camada de governança amarra o cliente mais fundo no ecossistema, transforma o que era contrato em casamento e o que era casamento em servidão contratual. O comprador entra achando que está domando a tecnologia, e sai descobrindo que assinou usufruto vitalício de uma plataforma que ele não controla, não audita de fato, e da qual não consegue mais sair sem demolir metade da operação.

E aqui mora a graça da coisa: o mercado regulatório global, sempre solícito, está pavimentando a estrada para esse tipo de produto. Quanto mais Bruxelas, Washington e Brasília legislam sobre "IA responsável", mais as grandes plataformas vendem ferramentas de compliance pré-fabricadas para atender exatamente aquilo que os reguladores, em conluio confortável com lobistas, decidiram exigir. A regulamentação que nasce supostamente para proteger o cidadão termina como barreira de entrada para concorrentes pequenos e selo de qualidade para os incumbentes. Quem tem dinheiro para pagar a Control Tower sobrevive; quem não tem, fecha. Chama-se isso, em bom português, de captura regulatória, e nenhum economista de banco vai escrever uma linha sobre o assunto, porque o banco também usa ServiceNow.

A parte que ninguém discute é a invisível. Cada hora gasta configurando políticas de governança numa plataforma proprietária é uma hora que não foi investida em entender o próprio negócio. Cada milhão pago em licença é um milhão que não virou salário, não virou pesquisa, não virou redução de preço para o consumidor final. O ganho de "produtividade" prometido pelos agentes de IA evapora silenciosamente nas camadas de overhead que a própria solução exige para funcionar dentro da lei. No fim, a empresa cliente paga a IA, paga o vigia da IA, paga o consultor que configura o vigia, e paga o auditor que certifica que o vigia está vigiando. Quatro empregos onde antes havia um, e nenhum deles produz nada que o cliente final consiga tocar.

Há também uma camada filosófica que merece ser dita sem rodeios. A ideia de que precisamos de uma "torre de controle" centralizada para nos proteger das máquinas que nós mesmos fabricamos é prima irmã da velha tentação de delegar julgamento moral a um burocrata distante. Antes era o ministério, agora é o painel SaaS; antes era o comissário, agora é o dashboard. O resultado é o mesmo: a responsabilidade individual de cada engenheiro, cada gestor, cada empresa, é diluída numa estrutura que ninguém entende inteiramente, mas que todos juram seguir. Quando algo der errado, e vai dar, ninguém será culpado, porque o sistema estava em conformidade. A conformidade virou álibi, e o álibi virou produto.

Enquanto isso, as ações sobem, os analistas batem palmas, e o consumidor final, aquele que paga tudo no fim da cadeia via preço de software, conta de luz e imposto, segue achando que isso tudo é progresso. Não é. É apenas o capítulo mais recente de uma história velhíssima, em que quem cria a doença monta a farmácia, registra a patente do remédio, e ainda preside o conselho de saúde pública que determina quem deve ser tratado. A inovação verdadeira liberta; essa só amarra com fios mais finos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.