A ServiceNow apresentou no seu evento anual em Las Vegas um arsenal de ferramentas de aprendizado movidas a inteligência artificial, prometendo revolucionar como funcionários adquirem conhecimento dentro das corporações. O recado, embrulhado em jargão técnico e palavras de ordem sobre transformação digital, é simples e antigo: assine nosso produto, jogue fora o pensamento crítico, deixe a máquina decidir o que seu colaborador precisa saber. E pague por isso, claro, em dólares e em mensalidades crescentes.
Olha, ninguém é contra ferramentas que ajudem o sujeito a aprender mais rápido. O problema não está no software, está na pretensão. Quando uma empresa vende a ideia de que um algoritmo entende melhor as necessidades cognitivas de um funcionário do que o próprio funcionário, o supervisor dele e a cultura da empresa onde trabalha, estamos diante daquela velha arrogância de quem acha que pode centralizar num painel o conhecimento que está disperso em milhões de cabeças. O algoritmo não sabe o que sua equipe precisa saber. Ele chuta com base em padrões e cobra por isso.
Siga o dinheiro e a coisa fica clara. Departamento de RH gosta porque pode justificar orçamento. Diretoria gosta porque coloca PowerPoint dizendo que está investindo em IA. ServiceNow gosta porque cobra licença recorrente. O acionista gosta porque o múltiplo da ação sobe toda vez que aparece a sigla mágica de duas letras no comunicado trimestral. E quem paga essa festa? O cliente final, que vê o preço do software corporativo subir ano após ano sem que nada na sua experiência efetivamente melhore. É o capitalismo de compadrio versão SaaS, com gravata e badge de conferência.
Tem uma armadilha ainda mais perversa nessa história, daquelas que só se vê depois. Quando você terceiriza para um sistema externo a tarefa de decidir o que seu funcionário precisa aprender, está terceirizando junto a capacidade da sua empresa de pensar sobre si mesma. O conhecimento que se constrói internamente, em conversa, em mentoria, em erro corrigido pelo veterano, esse não cabe em dashboard. E quando ele desaparece, ninguém percebe, porque o relatório do fornecedor continua lindo, cheio de gráficos verdes e métricas de engajamento que não significam absolutamente nada no mundo real.
O sintoma maior é cultural. Vivemos um momento em que toda dificuldade humana, aprender, lembrar, decidir, escrever, raciocinar, é tratada como bug a ser resolvido por subscrição. O esforço cognitivo virou inimigo. A dificuldade virou problema técnico. E o resultado dessa infantilização sistemática é uma força de trabalho cada vez mais dependente de muletas digitais, incapaz de operar sem prompt, sem sugestão automática, sem o algoritmo dizendo o próximo passo. Isso não é progresso, é atrofia patrocinada.
No fim das contas, o Knowledge 2026 não anunciou uma revolução, anunciou mais um capítulo da longa novela em que vendedores de software convencem executivos de que comprar licença é o mesmo que resolver problema. Não é. Nunca foi. A diferença entre uma empresa que aprende e uma empresa que apenas consome ferramentas de aprendizado é a mesma diferença entre quem lê um livro e quem compra a estante.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.