A notícia veio seca, quase burocrática, mas diz mais sobre o estado do mundo do que mil discursos de Davos. A produção industrial asiática voltou a acelerar em abril, e quem puxou a fila foi o velho e bom setor automotivo, aquele mesmo que aqui no Brasil virou objeto de pena nacional, com fábrica fechando, montadora pedindo socorro e governo prometendo, pela enésima vez, um plano salvador que ninguém pediu e ninguém vai pagar voluntariamente.

Olha, o fato concreto é cristalino. Onde se produz com menos atrito, produz-se mais. Onde a carga tributária permite que a engenharia respire, a engenharia avança. Tailândia, Vietnã, Indonésia, Coreia, Japão, China, cada um no seu ritmo, mas todos partilhando a mesma coisa elementar que o brasileiro esqueceu: capital, previsibilidade, disciplina monetária e respeito mínimo ao contrato. Não é mistério oriental, não é cultura confuciana, não é sabedoria milenar. É aritmética. Quem deixa o empresário trabalhar colhe fábrica, quem o trata como suspeito colhe planilha de incentivo fiscal e desemprego.

Quer dizer, alguém precisa explicar por que o consumidor asiático compra um carro novo equivalente a doze, quinze meses do seu salário, enquanto o brasileiro precisa de cinquenta, sessenta, setenta meses para comprar um Fiat de entrada que custaria metade na fronteira. A resposta está no que não se vê: cada parafuso desse carro brasileiro carrega imposto sobre imposto, regulação sobre regulação, cota de conteúdo local, financiamento subsidiado por bancos públicos que cobram do contribuinte o que dão ao fabricante, regime automotivo, Rota 2030, Mover, Inovar-Auto, e mais uma sopa de letrinhas que serve para um único propósito real: blindar quem já está dentro contra quem poderia entrar e baratear o produto.

Siga o dinheiro e o teatro se desfaz. O suposto "incentivo à indústria nacional" é, na prática, um arranjo entre montadoras instaladas, sindicatos com assento garantido, bancos de fomento e ministérios famintos por fotografia de inauguração. O contribuinte paga via imposto, o consumidor paga via preço, e o desempregado paga via vaga que nunca foi criada porque a fábrica que viria preferiu o Vietnã, onde ninguém precisa contratar advogado tributarista antes de apertar o primeiro parafuso. O lucro é privatizado, o custo é socializado, e o discurso é sempre o mesmo: "estamos protegendo o emprego brasileiro". Estão protegendo, sim, mas o emprego do lobista em Brasília.

E aqui mora a parte mais dolorosa, aquela que a imprensa econômica oficial não toca porque vive do mesmo balcão. A Ásia produtiva de hoje foi, há quarenta anos, a Ásia miserável que o Brasil olhava com superioridade. O que mudou lá não foi sorte, não foi commodity, não foi geopolítica. Foi a decisão silenciosa de deixar o preço informar, o capital fluir e o produtor produzir. O Brasil fez o caminho inverso, com o entusiasmo de quem corre para o precipício achando que está subindo a montanha, e agora estranha quando a montadora coreana decide montar fábrica na Indonésia em vez de em Camaçari. Não estranhe, faz sentido. Capital não é patriota, é racional.

O recado de abril é o de sempre, só que mais alto. Não existe atalho. Não existe política industrial inteligente o bastante para vencer a aritmética do imposto e a paralisia da insegurança jurídica. Enquanto a Ásia coloca carro na rua, o Brasil coloca portaria no Diário Oficial, e depois se pergunta, com cara de paisagem, por que a indústria automotiva do Mercosul vira folclore. A resposta, senhoras e senhores, é a mais antiga da economia: produz mais quem é menos atrapalhado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.