O setor de serviços da China acelerou o ritmo de crescimento em abril, segundo o índice divulgado nesta semana, e o mercado global engoliu o anúncio com a mesma reverência com que se engole bula de remédio milagroso vendido em camelô. Quem leu o título e correu comprar ações asiáticas talvez precise sentar e respirar, porque há uma diferença abissal entre uma economia que cresce e uma economia cujo crescimento é decretado por um comitê que também imprime a régua que mede o crescimento.

Olha, não existe nada de errado em o setor de serviços de qualquer país acelerar. O que existe de errado é fingir que um índice produzido sob a tutela de um regime de partido único, que pune estatístico desobediente com visita amigável da polícia política, é equivalente a um termômetro. Termômetro mede febre. Esse índice mede o humor do politburo. Quando Pequim precisa de número bom, número bom aparece, e a pesquisa que mostraria o contrário some no caminho entre o servidor e a manchete.

Quer dizer, é preciso lembrar como a fábula chegou até aqui. A China passou as últimas duas décadas construindo cidades vazias, financiando incorporadoras zumbis com crédito artificial despejado pelo banco central, e maquiando exportações com subsídios que distorcem preço relativo do mundo inteiro. Quando o crédito dirigido infla bolha, a bolha estoura, e a única saída do regime é injetar mais crédito dirigido para inflar a bolha seguinte, que será maior. O serviço que cresce hoje é, em boa parte, o eco contábil desse mesmo expediente, gente atendida em balcão financiado por dívida que ninguém sabe quem paga.

Me diz uma coisa, quem ganha quando o mundo acredita que a China voltou a crescer? Ganham os fundos comprados em ativos chineses que precisam de liquidez para sair pela porta dos fundos. Ganham as commodities que sobem no susto e enriquecem trading desks de Londres a São Paulo. Ganha o regime, que compra mais um trimestre de paz social. Perde o trabalhador chinês, que continua tutelado, vigiado e produtivo num sistema que confisca o fruto do seu trabalho via inflação, repressão financeira e câmbio manipulado. A festa está sempre na sala de cima.

Há ainda aquilo que ninguém vê na manchete. Cada ponto a mais nesse índice de serviços corresponde a empreendedores ocidentais que adiarão investimento em casa porque o capital mundial está sendo precificado com base numa fantasia. Corresponde a poupança de aposentados americanos e europeus parqueada em ETF de mercados emergentes que aposta num crescimento decretado. Corresponde, no limite, a fábrica que não abriu em Minas, em Ohio ou em Manchester porque o capital preferiu ir financiar o teatro estatístico do Mar do Sul. O visível é o número subindo. O invisível é a riqueza real que deixou de existir em outro lugar.

O óbvio que o noticiário se recusa a enxergar é que economia centralmente dirigida não cresce, ela apenas adia o ajuste. E ajuste adiado é ajuste com juros compostos. Em algum momento a conta vem, vem em forma de deflação de ativos, fuga de capital, calote disfarçado de reestruturação ou guerra para distrair a plebe. Por enquanto, o partido sorri, o índice sobe e o analista de banco escreve relatório otimista. Da próxima vez que alguém disser que a China está crescendo, pergunte quem mediu, com que régua e a mando de quem. A resposta sozinha já vale o preço da assinatura.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.