O índice de gerentes de compras dos serviços na Índia voltou a acelerar em abril, atingindo o maior patamar em cinco meses, com novos pedidos crescendo no ritmo mais forte do ano e contratações em alta. Não é milagre, não é sorte, e definitivamente não é resultado de algum plano quinquenal genial bolado por um burocrata em Nova Délhi com diploma de Harvard. É consequência direta de um país que, lentamente e a duras penas, começou a entender o que sociedades prósperas entenderam há séculos: quando o Estado sai do caminho, gente comum produz riqueza.
Vale lembrar que estamos falando da mesma Índia que, até os anos 1990, era o caso clássico de manual sobre como destruir um país com regulação. Tinha-se o famoso Licence Raj, aquele festival burocrático em que abrir uma fábrica exigia mais carimbos do que casamento de família tradicional, e o resultado era previsível: pobreza endêmica, escassez crônica, mercado paralelo gigantesco e uma elite política convencida de que o problema era falta de mais Estado. Quando finalmente liberalizaram, ainda que de modo tímido e parcial, o país que dizem ser inviável passou a crescer a taxas que envergonham qualquer economia desenvolvida.
Olha, me diz uma coisa: por que será que ninguém na imprensa econômica brasileira está fazendo a pergunta óbvia? Por que a Índia, com população três vezes maior que a Europa inteira, infraestrutura precária, conflitos religiosos, castas, monções e tudo o mais que se possa imaginar de obstáculo, consegue crescer enquanto o Brasil patina há uma década na faixa do PIB pífio? Não é mistério. É que lá, mesmo com governo intervencionista, o setor privado tem espaço para respirar. Aqui, o sufoco regulatório, tributário e ideológico transformou empreender numa modalidade extrema de masoquismo.
O dado mais interessante do relatório indiano é a expansão das exportações de serviços, que cresceram no ritmo mais acelerado em meses. Isso significa que indianos estão vendendo serviço para o mundo, recebendo divisa forte, contratando, investindo. Enquanto isso, o brasileiro médio está preenchendo formulário do eSocial, pagando DAS, MEI, ISS, ICMS, PIS, COFINS e ainda escutando ministro dizer que o problema do país é o juro alto, como se a inflação que justifica esse juro tivesse caído do céu e não fosse fruto direto de uma máquina pública obesa que torra dinheiro alheio com a desenvoltura de bêbado em open bar.
O que se vê no caso indiano é apenas uma parte da história, e talvez nem a mais importante. O que não se vê é o tanto de capital, talento e iniciativa que fugiu daquele país durante décadas de socialismo fabiano e só voltou quando ficou seguro que o dinheiro não seria confiscado na próxima eleição. É a velha lição que sociedade nenhuma aprende sem apanhar primeiro: capital tem pernas, talento tem passaporte, e ambos vão para onde são tratados com respeito. Quem trata empresário como inimigo de classe vai acabar governando uma terra arrasada com discurso bonito sobre justiça social.
A moral indiana para o Brasil é desconfortável justamente porque é simples demais para os intelectuais que adoram complicar. Crescimento não vem de pacote anunciado em pronunciamento solene, vem de gente que pode trabalhar, contratar, investir e lucrar sem pedir licença. Tudo o mais é conversa para boi dormir, ou pior, para eleitor acreditar que existe almoço grátis em algum lugar do orçamento da União.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.