Pela primeira vez desde 2021, o setor de serviços da Irlanda encolheu, e o coro habitual dos analistas já corre para culpar a "incerteza global", a "desaceleração externa", o "ambiente desafiador", todos esses sinônimos elegantes que economistas usam quando não querem admitir o óbvio. O óbvio é que a Irlanda virou, há tempos, uma vitrine montada sobre alicerces de papel. O chamado milagre celta nunca foi milagre coisa nenhuma; foi engenharia tributária somada a fluxo abundante de capital barato impresso em bancos centrais que confundiram criação de moeda com criação de riqueza. Quando a maré recua, todo mundo descobre quem estava nadando pelado.

Olha, é preciso entender o truque para entender a queda. A Irlanda virou hub europeu das gigantes de tecnologia e farmacêuticas porque ofereceu alíquotas que faziam Luxemburgo parecer paraíso socialista. Sobre essa base de royalties contabilizados em Dublin, ergueu-se um setor de serviços inflado por consultorias jurídicas, escritórios de compliance, contadores especializados em transferência de lucros e toda uma fauna de intermediários cuja função era cosmética fiscal. Tire o subsídio cruzado da política tributária ultra agressiva, some o aperto monetário do Banco Central Europeu, jogue em cima a pressão da OCDE pelo imposto mínimo global, e o que sobra não é um setor produtivo, é uma estrutura de arbitragem regulatória ofegante.

O que não se vê nesse encolhimento é justamente a parte mais cara da conta. Cada emprego criado em Dublin pelo regime tributário privilegiado correspondeu a empregos não criados em Lisboa, em Atenas, em Madri, porque o capital que migrou para a ilha foi capital que deixou de produzir bens e serviços reais em outros lugares. Não foi crescimento líquido europeu; foi rearranjo. Quando o jogo agora se inverte, os irlandeses descobrem que toda riqueza importada por decreto sai pela mesma porta que entrou. O PIB per capita altíssimo da Irlanda sempre foi uma ilusão estatística, lucros multinacionais contabilizados ali sem que um único parafuso fosse fabricado na ilha. Estatística mente quando se esquece de perguntar de onde veio o número.

Há ainda a camada monetária do desastre, a que ninguém quer discutir em entrevista de televisão. O Banco Central Europeu inundou o continente de liquidez por mais de uma década, empurrou juros para o subsolo, financiou indiretamente a expansão de toda essa indústria de serviços de alto valor agregado que floresceu na bolha. Quando finalmente teve que apertar para conter a inflação que ele próprio criara, o castelo começou a tremer. Expansão artificial de crédito sempre cobra a fatura; a única dúvida é quem paga e quando. Desta vez, parte da fatura chegou endereçada a Dublin.

E aí entra o detalhe brasileiro que ninguém pode ignorar. Há ministros e economistas no Planalto que olham para a Irlanda dos últimos quinze anos e sussurram que precisamos imitar o modelo, atrair multinacionais com regimes especiais, montar nossos próprios oásis tributários setoriais. Esses senhores deveriam ler o jornal de hoje antes de propor o de amanhã. Não existe atalho para prosperidade real; existe trabalho, poupança, propriedade segura e regra clara que vale para todo mundo, não privilégio costurado para alguns. Quando o Estado escolhe vencedores, escolhe junto os perdedores que vão pagar a conta na próxima recessão.

O encolhimento irlandês é menos uma notícia econômica e mais uma parábola fiscal. Mostra que economias construídas sobre engenhocas regulatórias, juros artificialmente baixos e dependência de capital migratório têm prazo de validade tão curto quanto a paciência dos bancos centrais. Mostra que estatística inflada não alimenta ninguém quando o emprego desaparece. E mostra, sobretudo, que aquilo que se ergue sobre artifício, por artifício se desfaz. O tigre celta nunca foi tigre, era gato pintado de listras pelo departamento de marketing da União Europeia, e agora a tinta começa a escorrer.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.