O índice PMI composto de Singapura subiu para o maior patamar dos últimos meses em abril, puxado por um volume de novos negócios que os próprios analistas locais classificaram como recorde. Tradução para o português dos brasileiros que ainda acham que prosperidade vem de Brasília: numa cidade-estado que cabe dentro do município de São Paulo, empresários assinaram mais contratos em trinta dias do que em qualquer abril já registrado pela série histórica. E não, não foi por causa de um pacote de bondades do governo. Foi exatamente porque o governo de lá entendeu, há décadas, que o melhor que pode fazer pelo empresário é sair da frente.

Vale a pena olhar para o que não se vê nesse número. Cada novo negócio fechado em Singapura representa, do outro lado do oceano, dezenas de negócios que não nasceram em algum lugar onde a carga tributária consome metade do faturamento antes mesmo da primeira venda. O capital é covarde, dizem os manuais, mas é mentira: o capital é racional. Ele vai para onde o contrato é cumprido, onde o tributo é previsível, onde o juiz não acorda com vontade de reescrever a lei. Singapura oferece tudo isso. O Brasil oferece a CLT, o Carf, o Coaf e a sensação permanente de que amanhã alguém na Esplanada vai inventar uma nova alíquota.

Há uma fábula curiosa que se conta sobre as ex-colônias britânicas. Hong Kong, Singapura, e até a velha Inglaterra antes de descobrir o socialismo de Whitehall, cresceram sob a mesma fórmula entediante: propriedade privada respeitada, moeda relativamente honesta, justiça relativamente célere e governo relativamente pequeno. A receita é tão chata, tão sem brilho, tão pouco vendável em palanque, que líderes do terceiro mundo preferem inventar atalhos. E é aí que entra o pulo do gato singapurense: eles entenderam que não existe atalho. Existe método. E método dá trabalho.

Olha, me diz uma coisa. Quando foi a última vez que um indicador econômico brasileiro veio acompanhado da palavra "recorde" sem que fosse recorde de dívida pública, recorde de gasto primário, recorde de servidores acima do teto? A gente bate recorde de tudo, menos das coisas que importam. Singapura, enquanto isso, cresce porque seu governo aprendeu a virtude rara de não atrapalhar. Não há subsídio bilionário, não há BNDES, não há campeão nacional. Há contrato, há previsibilidade, há um sistema judicial que entrega sentença antes de o réu morrer de velho. Coisa simples, quase grosseira de tão básica.

O dado de abril deveria ser lido em voz alta nas comissões de orçamento do Congresso, mas seria pedir demais. Lá, o debate continua girando em torno de qual setor merece mais isenção, qual lobby ganha qual benesse, qual ministério precisa de mais cargos comissionados para "fomentar a inovação". A inovação, ironicamente, acontece sozinha em qualquer lugar onde deixem o sujeito trabalhar. Em Singapura, deixam. No Brasil, fomentam. E o resultado dessa diferença semântica, ao longo de cinquenta anos, é a distância entre um país de primeiro mundo e um país que ainda discute se a bandeira branca da liberdade econômica é coisa de extremista.

O recorde de Cingapura não é noticia econômica, é notícia moral. É a prova viva, em tempo real, de que sociedades prósperas não são as que têm mais ministérios, mais agências reguladoras ou mais programas sociais. São as que conseguem proteger o sujeito que acorda às cinco da manhã para abrir uma padaria de quem acorda às dez para regulá-la. Quem confunde uma coisa com a outra fabrica miséria com a melhor das intenções. E, no fim, o gráfico não mente: liberdade gera negócio, negócio gera emprego, emprego gera riqueza. O resto é folclore de campanha eleitoral.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.