A Shentel fechou o primeiro trimestre de 2026 com expansão consistente da rede de fibra ótica, e o mercado bocejou como quem assiste água descer ladeira. Faz sentido que bocejasse. Empresa privada, em ambiente regulatório razoavelmente previsível, alocando capital onde enxerga demanda real, entregando infraestrutura sem precisar de um ministro batendo palma ao lado. É o tipo de notícia que parece banal justamente porque o sistema funciona, e quando o sistema funciona ninguém percebe. O leitor brasileiro, contudo, deveria parar dois minutos diante desse bocejo americano e perguntar por que aqui a mesma operação exigiria comitê interministerial, audiência pública, contrapartida social, fundo setorial e três anos de judicialização.
A resposta está naquilo que ninguém vê quando lê o balanço. O que se vê é a fibra crescendo, o cliente sendo conectado, o trimestre fechando no azul. O que não se vê é o universo paralelo de capital que não foi desperdiçado pagando burocrata, o exército de advogados que não precisou ser contratado para destravar licença, o subsídio cruzado que não foi imposto a consumidor de outra região para financiar aventura política. A riqueza, no fim, é sempre o que sobrou depois que o Estado não conseguiu meter a mão. Onde a mão consegue entrar, o resultado é Telebrás eternamente prometida e eternamente irrelevante.
Há quem diga que comparar Estados Unidos e Brasil é injusto porque lá tem escala, capital barato, mercado maduro. Conversa de quem confunde causa com efeito. O capital fica barato onde a propriedade é respeitada, a escala se forma onde o empreendedor não precisa pedir licença a cada metro de cabo enterrado, o mercado amadurece onde o preço é mensagem honesta entre quem oferece e quem demanda, não recado político disfarçado de tarifa social. Tudo isso é construção institucional paciente, feita ao longo de décadas por gente que entendeu uma coisa simples e que aqui se finge esquecer: planejador central nenhum sabe onde puxar fibra, quanto cobrar, em que velocidade expandir. Quem sabe é o sujeito que arrisca o próprio dinheiro e leva o prejuízo no bolso quando erra.
Siga o dinheiro do lado de cá e o roteiro fica didático. Cada real de "incentivo" ao setor de telecom no Brasil é cobrado em outro lugar, do mesmo contribuinte, que paga duas vezes: na conta de luz, no boleto da banda larga, no imposto embutido no celular, no Fust que ninguém sabe direito para onde foi. O fundo existe há mais de duas décadas, acumulou bilhões, e a internet do interior continua funcionando à base de fé, antena improvisada e provedor regional que cresce apesar do governo, nunca por causa dele. O dinheiro da "universalização" virou caixa para tapar buraco fiscal, e o cidadão segue ouvindo discurso solene sobre inclusão digital enquanto a realidade é entregue por pequeno empresário de cidade do interior que ergueu torre com financiamento próprio.
O caso Shentel, lido com olho treinado, é menos sobre telecomunicação e mais sobre o tipo de civilização que se quer construir. De um lado, sociedade que confia no indivíduo proprietário, na empresa que arrisca capital, no preço que carrega informação, no contrato que se cumpre. Do outro, país que ainda discute, em pleno 2026, se a infraestrutura crítica deve ser pública, semi-pública, mista, com participação estratégica do BNDES e golden share do Tesouro, enquanto o vizinho do norte simplesmente conecta as casas e fatura. A diferença entre crescer e estagnar nunca foi de tecnologia. Foi sempre de filosofia política aplicada à propriedade alheia.
O fato concreto do trimestre é uma operadora regional crescendo sem alarde. A lição embutida é que onde se permite ao capital trabalhar em paz, ele trabalha. Onde se insiste em domesticá-lo com regulação, planejamento e missão social, ele foge ou definha. O Brasil escolheu há muito tempo qual dos dois caminhos prefere, e segue colhendo o que plantou, lentidão, atraso e cerimônia. Quem quiser fibra de verdade, que olhe para quem deixa o dono da empresa decidir onde enterrar o cabo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.