Oitenta centavos por ação. Parece pouco, e é justamente por parecer pouco que é muito. A Sherwin-Williams, que vende tinta há mais de cento e cinquenta anos, anunciou seu dividendo trimestral regular com a pompa de quem escova os dentes antes de dormir, um gesto tão repetido que vira caráter. E aí está a primeira lição que o mercado brasileiro finge não entender, a de que capital sério não é o que grita em entrevista coletiva anunciando bilhão em investimento com foto do ministro, é o que paga o acionista trimestre após trimestre, guerra após guerra, presidente após presidente, sem precisar de subsídio, sem precisar de BNDES, sem precisar de ninguém segurando a mão.
Pense na aritmética do sujeito que comprou ação dessa empresa há vinte anos e reinvestiu cada centavo de dividendo. Não foi preciso gênio, não foi preciso timing, não foi preciso aplicativo com gráfico psicodélico. Foi preciso ter paciência e respeitar a natureza daquilo que se possui, ou seja, um pedaço de uma companhia que pinta a casa do americano médio e, enquanto pinta, devolve dinheiro a quem bancou o negócio. Esse é o tipo de riqueza que se constrói quando o Estado fica no canto dele e deixa o mercado funcionar. Aqui embaixo do Equador, a gente prefere o esporte nacional de confiscar o dividendo alheio via imposto novo para financiar ministério novo que vai salvar alguma categoria nova.
Olha, o contraste dói. Enquanto a empresa de tinta anuncia, com a serenidade dos bons operadores, mais uma distribuição aos donos de verdade do negócio, a conversa pública brasileira gira em torno de como tributar lucros e dividendos para "fazer justiça social". Quer dizer, o sujeito arrisca capital, emprega gente, entrega produto, paga fornecedor, paga imposto sobre o lucro, e aí, depois de tudo isso, quando finalmente sobra algo para ele levar para casa, aparece o salvador da pátria dizendo que aquilo ali é privilégio. Privilégio é acordar cedo com a impressora do Tesouro rodando para pagar o salário de quem decidiu que o seu dinheiro pertence à coletividade.
E note o detalhe elegante, a companhia distribui dividendo em dólar. Não em moeda erodida por banco central travesso, não em promessa de papel lastreada em confiança que evapora a cada eleição, mas na unidade monetária que o planeta inteiro usa para precificar risco quando o circo pega fogo. O acionista brasileiro que aplicou lá fora não ficou mais rico porque especulou, ficou mais rico porque saiu da moeda fraca para a moeda forte e, além disso, comprou um pedaço de algo que produz valor real, lata de tinta que vai para a parede do consumidor final que paga com o próprio salário. Simples assim. Chato, previsível, eficaz.
Me diz uma coisa, por que é tão difícil reproduzir isso aqui? A resposta está exatamente no problema. Não se reproduz porque cada empresário que tenta construir algo parecido recebe visita da Receita, do Ministério Público, da Anvisa, do Procon, da agência reguladora da vez, do sindicato, da ONG, do vereador que quer CPI, e no meio disso tudo precisa ainda segurar mão de obra cara por lei, energia cara por decreto, crédito caro por culpa do gasto público descontrolado. Tinta, no Brasil, custa mais por causa do governo, não por causa da tinta. A Sherwin-Williams americana não é apenas uma empresa bem tocada, é o subproduto natural de um ambiente onde o capital ainda tem algum direito de existir sem pedir licença.
Oitenta centavos por ação, trimestre após trimestre, e o mundo continua girando. É isso que uma economia livre produz quando ninguém resolve melhorar. O resto é literatura de gabinete.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.