Uma empresa que vende caneca personalizada com a foto do seu cachorro acaba de empilhar US$ 1,9 bilhão em refinanciamento. Pare e leia de novo. Um bilhão e novecentos milhões de dólares para uma operação cujo produto final é, na prática, papel fotográfico com verniz. A Shutterfly não está tomando esse dinheiro para construir fábrica, abrir mercado ou desenvolver tecnologia disruptiva; está tomando para pagar dívida antiga, aquela velha brincadeira de empurrar o vencimento para frente na esperança de que, lá na frente, o mundo esteja mais generoso. É o equivalente corporativo de pagar o cartão de crédito com outro cartão de crédito, só que com banqueiro de terno engomado dando entrevista sobre "reestruturação de capital".
Vale a pena seguir a trilha do dinheiro, porque ela conta a história inteira. A Shutterfly foi capturada pela Apollo em 2019, numa transação alavancada típica do manual: compra-se a empresa com pouco capital próprio e muita dívida, joga-se a dívida no balanço da própria adquirida, e a vítima passa o resto da existência trabalhando para pagar os juros do leveraged buyout que a engoliu. A pandemia até deu sobrevida, com gente trancada em casa imprimindo álbum de quarentena, mas o jogo é cruel; assim que a taxa básica subiu e o consumidor descobriu o Instagram de graça, o modelo virou pó. O que restou foi uma empresa operacionalmente decente atada a uma estrutura de capital construída para outro planeta monetário.
E aqui está o detalhe que ninguém quer comentar em voz alta. Toda essa orgia de alavancagem só foi possível porque, durante mais de uma década, o custo do dinheiro foi artificialmente espremido a zero. Quando o juro real é negativo, qualquer ideia parece boa, qualquer múltiplo se justifica, qualquer dívida parece administrável. O resultado é uma geração inteira de empresas zumbis, vivas o suficiente para pagar juros, mortas o suficiente para nunca crescer. O dinheiro fácil não criou prosperidade, criou um cemitério de balanços inchados que agora desfilam de chapéu na mão pedindo rolagem aos credores. A Shutterfly é apenas o nome da semana.
Repare na coreografia da operação. Os mesmos fundos que originaram o problema agora cobram comissão para administrar a solução. Há banco estruturando, advogado redigindo, consultor avaliando, agência classificando, e cada um leva sua fatia gorda do bolo antes que sobre qualquer coisa para o credor original. É um ecossistema inteiro que prospera não quando a empresa cresce, mas quando ela tropeça. A reestruturação virou produto, o default virou serviço, e o coitado que comprou a foto da formatura do filho está, sem saber, financiando essa engrenagem barroca de Wall Street.
O destino mais provável dessa rolagem é a próxima rolagem. Empurra-se o vencimento de 2026 para 2029, troca-se um covenant por outro, pinta-se de novo a fachada e finge-se que o problema foi resolvido. Em algum momento, porém, a aritmética cobra. Ou o consumidor volta a imprimir álbuns em volume capaz de sustentar a dívida, o que é improvável num mundo onde a memória vive na nuvem, ou alguém come o prejuízo. E quando esse alguém aparecer, não será o sócio de private equity que estruturou a tese em 2019; será o fundo de pensão anônimo que comprou o título de dívida acreditando no rating. Privatizar lucro e socializar prejuízo continua sendo o esporte favorito do andar de cima.
No fim, a fábula da Shutterfly não é sobre fotografia, é sobre o que acontece com qualquer setor da economia quando o sinal mais importante do capitalismo, o preço do dinheiro, é falsificado por décadas. Empresas viáveis ficam doentes, empresas inviáveis sobrevivem, e o capital que deveria fluir para o que cria valor real fica preso pagando juro de transação que nunca deveria ter existido. Bilhão e novecentos milhões para tirar foto. Pense nisso na próxima vez que disserem que o problema da economia é falta de regulação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.