A Silvaco Group, fornecedora de software para design de semicondutores, anunciou a ampliação de seu programa de oferta contínua, o famoso ATM (at-the-market), para a bagatela de US$ 35 milhões. Traduzindo do dialeto financeiro para o português dos mortais, isto significa que a empresa vai vender ações novas, aos pouquinhos, sempre que o mercado estiver disposto a engolir, diluindo silenciosamente quem já era acionista. É o tipo de movimento que vem embrulhado em comunicado solene, com palavras como "flexibilidade financeira" e "fortalecimento de capital", quando na verdade é só uma forma educada de dizer que a companhia precisa de dinheiro e que vai tirá-lo do bolso de quem confiou nela primeiro.

Olha, programa de oferta contínua é uma das criações mais elegantes da engenharia financeira contemporânea, e elegantes no sentido em que um carteirista é elegante quando trabalha em metrô lotado. A vítima nem percebe. Cada ação nova que entra no mercado fatia um pedaço a mais do bolo que pertencia a alguém, e o detentor antigo descobre, lá no extrato trimestral, que sua participação encolheu sem que ele tenha vendido nada. É o equivalente corporativo daquele truque do governo de imprimir moeda: o número de unidades aumenta, mas o valor real de cada uma escorre pelo ralo. A diferença é que aqui o ato exige assinatura de banco de investimento e três páginas de fact sheet em inglês jurídico.

Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que uma empresa que precisa de US$ 35 milhões via ATM está em posição confortável? Companhia saudável faz oferta primária organizada, capta de uma vez, paga o que precisa pagar e segue a vida. Quem recorre ao gotejamento contínuo está dizendo, sem dizer, que prefere não chamar atenção sobre o tamanho real da necessidade. É o método do paciente que toma remédio às escondidas porque tem vergonha de admitir que está doente. E enquanto o caixa engorda, o mercado de semicondutores, com toda a euforia da inteligência artificial, mascara fragilidades operacionais que em outro ciclo já teriam derrubado o papel.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Quem ganha com programa de ATM? O banco colocador, que embolsa comissão sobre cada lote vendido. A diretoria, cujos bônus costumam estar atrelados a métricas que melhoram quando há caixa fresco entrando. Os fundos institucionais, que recebem oferta privilegiada antes do varejo entender o que aconteceu. E quem perde? O acionista pequeno, aquele que comprou ação porque acreditou na tese de longo prazo e agora descobre que sua fatia foi liquefeita silenciosamente para sustentar a operação. A festa é privada, a conta é socializada entre os minoritários, e o convite chegou com seis meses de atraso.

O detalhe perverso é que toda essa engenharia opera dentro do que se convencionou chamar de "mercado livre", quando na verdade vivemos sob um mercado domesticado por regulação que privilegia o jogador grande e protege o pequeno apenas no folheto explicativo. Empresa de capital aberto ganhou nas últimas décadas uma série de ferramentas para captar sem disclosure agressivo, sem aprovação caso a caso, sem o constrangimento da oferta tradicional. O resultado é que o investidor de varejo, aquele que a propaganda chama de "novo protagonista do mercado", virou na prática a fonte de liquidez permanente das companhias que não conseguem se sustentar gerando caixa de verdade. Capitalismo sem capital próprio, sustentado por diluição perpétua disfarçada de estratégia.

Quando você ouvir "programa ampliado para fortalecer estrutura de capital", traduza mentalmente para "vamos imprimir mais ação enquanto vocês não estão olhando". É o mesmo princípio do banco central, só que em escala microeconômica e com gravata melhor cortada. A diferença é que do banco central ninguém escapa, mas da Silvaco basta não comprar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.