Silver Lake Partners IV, o fundo de private equity que entrou na Dell quando Michael Dell decidiu, em 2013, tirar a empresa da bolsa para "reorganizá-la longe dos holofotes trimestrais", acaba de se desfazer de US$ 86,9 milhões em ações. A operação foi reportada como rotina, papel divulgado, formulário 4 entregue à SEC, nada de mais. Só que rotina, nesse vocabulário, é a palavra que se usa quando se quer que o leitor desligue o cérebro antes de fazer a pergunta óbvia: por que o sócio que estruturou toda a engenharia financeira da Dell na última década está reduzindo posição justamente agora?
Vale lembrar o enredo, porque a memória curta é o melhor amigo do dinheiro esperto. Em 2013, Michael Dell e Silver Lake fecharam o capital da Dell numa operação de US$ 24 bilhões alavancada até o último centavo, argumentando que a empresa precisava de "paciência de longo prazo" para se reinventar. Em 2018, mágica, a Dell voltou à bolsa, agora reembalada, endividada, mas vendida como história de transformação digital. O acionista pulverizado entrou comprando a narrativa. O sócio original ficou com o naco gordo. Sete anos depois, esse mesmo sócio começa a girar a chave para a saída. Coincidência é uma palavra que ganha dinheiro sustentando ilusão.
O ponto que ninguém quer ver é que esse balé entre fechamento de capital, reestruturação subsidiada por endividamento corporativo e reabertura com prêmio é exatamente o tipo de arranjo que só prospera num ambiente de juros artificialmente baixos durante uma década inteira. Sem dinheiro de graça emitido pelo Federal Reserve, sem a tolerância regulatória americana com alavancagem cavalar, sem a engenharia tributária que transforma juro pago em dedução, a operação Silver Lake-Dell teria sido inviável. O fundo não descobriu valor escondido na Dell; o fundo arbitrou a generosidade involuntária do contribuinte e do poupador americano, que pagaram a conta via inflação de ativos e remuneração ridícula nas suas cadernetas. Isso não é capitalismo de mercado, é capitalismo de compadrio com sofisticação de planilha.
E note o timing. Os juros nos Estados Unidos finalmente subiram, o custo de carregar dívida explodiu, o ciclo de crédito artificialmente esticado começou a cobrar a fatura, e os mesmos atores que se beneficiaram da era do dinheiro fácil são os primeiros a passar o bastão. Quem fica segurando o papel quando a música para? O investidor de varejo, o fundo de pensão que precisa bater meta, o aposentado que comprou Dell porque a corretora disse que era "valor de longo prazo". A elite financeira distribui prejuízo com a mesma eficiência com que centraliza lucro, e chama esse processo de mercado livre. Não é. É a parte visível, vendida como meritocracia, enquanto a parte invisível, a expansão monetária que financiou tudo, segue intocada na narrativa oficial.
Há algo profundamente revelador no fato de que essa notícia circule como item técnico, número entre números, sem que ninguém pergunte qual é o sinal embutido. Quando o insider mais bem informado do planeta sobre uma companhia decide reduzir exposição, ele não está fazendo "rebalanceamento de portfólio", está votando com a carteira. E o voto da carteira é sempre mais honesto do que qualquer relatório de relações com investidores. O pequeno aplicador brasileiro que comprou ADR de Dell ouvindo o influencer da semana deveria estar olhando para esse formulário 4 com a mesma atenção que daria a um vazamento de gás na cozinha.
No fim das contas, a história da Dell é a história em miniatura de como funciona o capitalismo financeiro contemporâneo: privatiza-se o lucro durante a euforia monetária, socializa-se o risco quando a maré vira, e a imprensa econômica trata cada movimento como acontecimento neutro, técnico, desprovido de moral. Quem ainda acredita que isso é o livre mercado em ação não entendeu nem o livre nem o mercado. Entendeu apenas o que lhe foi entregue mastigado por quem ganha vendendo a confusão como se fosse clareza.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.