Singapura importa quase tudo que come, tudo que veste e boa parte do que respira. É uma ilha de seis milhões de pessoas sem recursos naturais, construída sobre o princípio brutal de que ou você compete no mercado global ou perece. Quando o petróleo sobe por conta de uma guerra a seis mil quilômetros de distância, o custo não fica represado nos poços do Oriente Médio, ele viaja dentro de cada contêiner, dentro de cada fatura de transporte, dentro de cada produto manufaturado que desembarca no porto de Singapura. A Autoridade Monetária de Singapura sabe disso e, diferente de outros bancos centrais que preferem esperar pelo consenso do mercado antes de agir, parece disposta a ser a primeira na Ásia a mover o tabuleiro.
O mecanismo monetário de Singapura é peculiar, e vale entender por que. Em vez de fixar uma taxa de juros como faz o Fed ou o Banco Central do Brasil, a MAS opera pelo câmbio, ajustando a taxa de apreciação ou depreciação da sua moeda em relação a uma cesta de divisas. Apertar política, neste caso, significa deixar o dólar de Singapura se valorizar mais rápido, encarecendo as importações menos do que elas já estão custando, e barateando o que já foi importado. É uma ferramenta elegante para uma economia que vive de comércio. O problema é que a elegância da ferramenta não resolve a origem do problema, que não é monetária, é geopolítica. Nenhum banco central do planeta imprime petróleo.
Quer dizer, há uma distinção que a imprensa financeira raramente faz com a clareza que merece: controlar inflação importada é diferente de controlar inflação doméstica. A inflação que vem de dentro, aquela que nasce quando o governo imprime mais dinheiro do que a economia produz, essa o banco central pode combater diretamente, porque ele mesmo a criou. A inflação que vem de fora, carregada no preço do barril que subiu porque mísseis cruzaram o estreito de Ormuz, essa é outro animal. Você pode amortecer o choque, pode distribuí-lo no tempo, pode usar o câmbio como esponja parcial, mas não pode decretar que o petróleo volte ao preço de antes da guerra. Singapura sabe disso. O mercado sabe disso. A questão é quanto dessa conta o consumidor vai engolir antes que a inflação se instale nas expectativas, que é quando o problema vira crônico.
Olha, existe uma certa ironia histórica em assistir uma das economias mais livres do planeta sendo a primeira a reagir à guerra que os governos mais intervencionistas do mundo ajudaram a criar, financiar e prolongar com sanções mal calibradas, petrodólares reciclados e diplomacia de faz de conta. O Irã não se tornou uma potência desestabilizadora do dia para a noite. Décadas de política externa errática, de acordos que não foram cumpridos, de punições que não puniram quem deveria, produziram exatamente o resultado que qualquer análise honesta permitia prever. E agora é Singapura, que nunca mandou um soldado ao Oriente Médio, que paga a fatura mais cedo que os demais.
Me diz uma coisa: quem são os beneficiários diretos deste choque? Os produtores de petróleo que ficaram de fora do conflito. As empresas de logística que cobram mais por rotas alternativas. Os especuladores que compraram futuros de energia antes que o primeiro míssil fosse lançado. O dinheiro saiu de algum lugar e foi para algum lugar, como sempre faz. O consumidor de Singapura que paga mais pelo gás de cozinha e pelo transporte urbano financia, sem saber e sem querer, uma cadeia de beneficiários que começa no Golfo Pérsico e termina nos fundos de hedge de Londres e Nova York. Este é o verdadeiro mapa da guerra, não o que sai nos telegramas das agências.
A decisão de Singapura, qualquer que seja seu tamanho técnico, tem peso simbólico desproporcional ao porte da economia. Quando a cidade mais eficientemente governada da Ásia sinaliza que a inflação importada já é grande o suficiente para exigir resposta formal, ela está dizendo ao resto do continente que o choque não é transitório, não é ruído, não é o mercado se ajustando normalmente após um susto passageiro. É estrutural o suficiente para entrar no cálculo de política. O resto da Ásia vai observar o que acontece com Singapura. Se a medida funcionar, outros seguem. Se não funcionar, a conta fica ainda maior. Guerras sempre cobram mais de quem menos as provocou.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.