Duzentos e vinte e cinco milhões de dólares. Esse foi o preço que a Sitecore, gigante dinamarquesa de software de experiência digital, achou justo pagar pela Scrunch AI, uma startup que promete ajudar marcas a aparecerem nos resultados de busca generativa, aquela coisa nova em que você pergunta ao chatbot e ele cospe a resposta já mastigada, sem você precisar clicar em link nenhum. A operação foi anunciada esta semana e revela, sem cerimônia, o pânico silencioso que tomou conta do mercado de marketing digital. O Google, aquele monopólio confortável que cobrava pedágio de tudo que era loja virtual há vinte anos, está sendo contornado por dentro. E quando o monopólio racha, o desespero vira oportunidade de negócio.
Quer dizer, observe o movimento com calma. A Sitecore não comprou a Scrunch porque acordou inspirada. Comprou porque o chão estava fugindo dos pés. Toda a indústria de SEO, marketing de conteúdo e publicidade programática foi construída sobre uma premissa simples, a de que o consumidor digita uma palavra-chave, recebe uma lista de links azuis e clica em um deles. Essa premissa está virando peça de museu. Quando o usuário pergunta ao modelo qual é o melhor tênis para corrida e recebe uma resposta direta com três marcas recomendadas, todo o ecossistema de afiliados, blogs patrocinados e otimização de palavras-chave que sustentava bilhões em receita publicitária some no ar. Não há transição suave, há substituição abrupta. E quem não entendeu o tamanho do estrago ainda está pagando salário para equipe de SEO como se fosse 2018.
Me diz uma coisa, o que essa aquisição revela sobre o capitalismo de verdade, aquele que ninguém quer ver porque atrapalha a narrativa do estagnado contra o inovador. Revela que o mercado pune sem dó quem dorme no ponto. A Sitecore, fundada em 2001, sobreviveu duas décadas vendendo plataforma de gestão de conteúdo para grandes corporações, ganhou rios de dinheiro com isso e agora precisa torrar um quarto de bilhão em uma startup de quatro anos de existência para não virar pó. Ninguém apontou um decreto, ninguém regulou ninguém, ninguém precisou de comissão parlamentar. Foi a destruição criativa fazendo o trabalho sujo dela, aquele trabalho que burocrata nenhum jamais entenderá porque burocrata nenhum jamais precisou correr o risco do próprio bolso.
O detalhe delicioso é o seguinte. Enquanto governos do mundo inteiro se ocupam de redigir leis para regular inteligência artificial, comissões da União Europeia debatem se o algoritmo precisa pedir desculpas antes de responder, e burocratas brasileiros sonham com a LGPD da IA para arrecadar mais multas, o mercado já se reorganizou três vezes. Cada nova regulação é redigida para um mundo que deixou de existir no momento em que a tinta secou. A Scrunch surgiu, cresceu, foi adquirida e a próxima geração de ferramentas já está sendo gestada em algum garagem em Tel Aviv ou Bangalore enquanto o regulador europeu ainda está convocando audiência pública. É o eterno cabo de guerra entre quem produz riqueza e quem produz papel timbrado, e o papel timbrado sempre chega atrasado.
Vale lembrar também o que não se vê nessa operação. Os duzentos e vinte e cinco milhões que a Sitecore pagou não caíram do céu. Vieram do bolso de acionistas, vieram de clientes corporativos que pagaram licenças caras nos últimos anos, vieram da produtividade de programadores e vendedores que entregaram resultado. Esse capital, ao ser realocado para a Scrunch, deixou de ser usado em outras coisas, talvez em uma divisão interna que será descontinuada, talvez em bônus de funcionários que não virão. Toda decisão econômica é uma escolha entre alternativas invisíveis. Quando o estado faz a mesma realocação, ela é chamada de política industrial e ninguém calcula o que foi destruído no processo. Quando uma empresa privada faz, o mercado calcula em tempo real, e o erro é pago em ações que despencam, não em imposto que aumenta.
O recado para qualquer empresário com olhos para ver é cristalino. A revolução da busca por IA não é mais uma profecia de evangelista de tecnologia, é fato consumado precificado em centenas de milhões de dólares por compradores que não brincam com seu próprio dinheiro. Quem ainda acha que vai escapar dessa reconfiguração porque seu nicho é pequeno demais para ser engolido tem uma surpresa esperando na esquina. O mercado não pergunta se você está pronto. O mercado avisa pelo extrato bancário.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.