A Skyroot Aerospace, fundada em 2018 por dois ex-engenheiros da agência espacial indiana cansados da burocracia estatal, anunciou em Singapura, na conferência do Bank of America, que vai operar sua linha comercial de foguetes para colocar satélites em órbita. Quer dizer, dois rapazes saíram do mamute estatal, abriram empresa, captaram capital privado, e agora vão fazer o que a agência levaria décadas para entregar com o triplo do orçamento. E o governo indiano, em vez de criar uma CPI para investigar os "abutres do espaço", abriu o setor, liberou licenças e está ali aplaudindo. Imagine o conceito.

O ponto que ninguém quer enxergar é justamente este: a Índia descobriu, com um atraso de meio século em relação aos americanos e bem na hora certa em relação a si mesma, que o Estado é péssimo construtor de foguetes e ótimo destruidor de prazos. A agência espacial estatal indiana fez coisas notáveis, ninguém discute, mas fez no ritmo de quem usa dinheiro alheio sem prestar contas reais a ninguém. Quando o sujeito gasta o próprio capital, ou o capital de investidores que vão cobrar resultado, o foguete sai do papel em três anos, não em vinte. Não é mágica, é incentivo. O cara que assina o cheque é o mesmo que dorme mal à noite, e isso muda tudo.

Olha, vale comparar com o quintal. Enquanto a Índia liberou o setor espacial e já tem dezenas de startups disputando contratos, o Brasil ainda trata Alcântara como se fosse santuário militar dos anos sessenta. Aquele acordo com os americanos quase apodreceu na Câmara, base de lançamento perto do equador, vantagem geográfica que a Índia mataria para ter, e nós aqui discutindo se ceder o uso comercial é "entregar a soberania". Soberania de quê, me diz uma coisa, da grama que cresce na pista? Enquanto isso, o foguete VLS explodiu em 2003 matando vinte e um técnicos, o programa praticamente parou, e a estatal segue recebendo orçamento para fazer estudo de viabilidade do estudo anterior. Isso não é programa espacial, é cabide de emprego com logotipo bonito.

Siga o dinheiro e a história fica ainda mais cristalina. A Skyroot levantou capital privado de fundos como o GIC de Cingapura, Sherpalo, Greenko, gente que coloca dinheiro esperando retorno, não verba carimbada de orçamento aprovado em comissão mista. O investidor cobra entrega, cobra prazo, cobra resultado, e quando não vê, tira o capital. O contribuinte indiano, no esquema antigo, pagava e calava. O contribuinte brasileiro, no esquema atual, paga e ainda ouve discurso sobre como a estatal é "patrimônio do povo". Patrimônio do povo é aquilo que o povo não pode usar, não pode vender e não pode opinar. Belo patrimônio.

O que se vê é o foguete da Skyroot subindo. O que não se vê são os mil foguetes brasileiros que nunca subiram porque o capital privado nem foi convidado para a festa, porque o regulador exige licença que demora oito anos, porque a estatal tem reserva de mercado disfarçada de "interesse estratégico nacional", e porque qualquer empresário que ousasse propor um lançamento comercial seria chamado de aventureiro irresponsável pela imprensa econômica. A Índia descobriu que estratégico mesmo é deixar o sujeito fazer. Aqui ainda achamos que estratégico é o sujeito pedir autorização, em três vias, com firma reconhecida.

O resultado prático dessa diferença filosófica é geopolítico, econômico e civilizacional. A Índia em 2030 vai estar lançando satélites comerciais para meio mundo, captando bilhões em receita externa, formando engenheiros que ganham em dólar e ficam no país. O Brasil em 2030, no ritmo atual, ainda estará discutindo se o programa espacial precisa de mais um secretário adjunto. Não é falta de cérebro, sobra cérebro brasileiro, basta ver quantos trabalham na SpaceX, na Blue Origin, na própria Skyroot. É falta de liberdade econômica, sobra de Estado e excesso daquela mentalidade tropical que confunde controle com soberania. Foguete, no fim, é metáfora. Quem amarra o empreendedor no chão não fica no chão sozinho, leva o país junto.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.