Os slides do primeiro trimestre de 2026 da CMCT contam uma história que o release oficial tenta maquiar com gráfico colorido e adjetivo de consultor. O portfólio financeiro subiu, marcação a mercado favoreceu, alguma reprecificação de ativo gerou número bonito na linha de cima. E a operação? A operação, que é teoricamente a razão de existir da companhia, entregou perda. Quer dizer, a empresa ganhou dinheiro fazendo o que qualquer aplicador faz no home broker, e perdeu dinheiro fazendo aquilo que justifica ter CNPJ, funcionários, máquinas e diretoria. E ainda assim a apresentação é vendida como trimestre razoável.

Olha, isso não é contabilidade criativa, é confissão. Quando o resultado financeiro carrega o resultado operacional nas costas, a mensagem é simples: o negócio não está dando conta de si mesmo. A companhia virou um veículo de alocação que mantém uma operação anexa, quase como hobby caro. E o pior é que ninguém estranha mais. Virou paisagem do capitalismo brasileiro essa figura híbrida, meio holding, meio fundo, meio empresa, que sobrevive porque o juro alto e a tributação favorável aos ativos financeiros tornam mais lucrativo aplicar do que produzir.

Me diz uma coisa, por que custa tanto operar no Brasil a ponto de a própria empresa preferir o tesouro ao próprio negócio? A resposta está naquilo que ninguém aponta nos slides. Carga tributária que devora margem, custo de capital inflado por uma taxa básica que não cai porque o governo gasta como se não houvesse amanhã, encargos trabalhistas que transformam contratação em apólice de seguro contra processo, regulação setorial que muda a cada portaria. O empresário olha para a planilha, vê que a operação rende menos que um CDB, e toma a decisão racional. Racional para ele, devastadora para o país.

E aqui aparece o que os relatórios trimestrais nunca mostram. Cada real que a CMCT ganha financeiramente vem, em última instância, do imposto que outros pagam para que o governo role a dívida e remunere quem segura o título. O ganho do portfólio é, na prática, um repasse silencioso do contribuinte produtivo para o detentor de ativo. Não é mágica de mercado, é engenharia fiscal. A empresa que deveria gerar valor produzindo coisa real virou intermediária de uma transferência que ninguém votou, ninguém aprovou, e quase ninguém percebe.

O investidor de varejo, esse coitado, lê a manchete sobre lucro líquido positivo e compra a ação achando que comprou uma fábrica próspera. Comprou, na verdade, uma carteira de títulos com um galpão decorativo no fundo. No dia em que a curva de juros virar, no dia em que a marcação a mercado parar de ajudar, no dia em que o governo precisar mexer na tributação dos rendimentos para tapar o buraco do próximo pacote fiscal, o castelo de papel mostra do que é feito. E aí o release vai falar em ambiente desafiador, em cenário macro adverso, em ajustes pontuais. Sempre fala.

A lição que ninguém quer tirar é a mais simples. Um país onde o capital produtivo perde para o capital financeiro dentro da mesma empresa não tem problema de conjuntura, tem problema de natureza. Enquanto o Estado for o maior tomador, o maior pagador e o maior distorcedor de preços relativos, toda companhia minimamente racional vai migrar para a tesouraria e abandonar a fábrica. O resultado da CMCT no primeiro trimestre não é exceção, é diagnóstico. E o diagnóstico é de um doente que finge que está bem porque o exame de sangue veio normal, ignorando que o coração está parando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.