A Compass, braço de gás da Cosan, soltou os slides do primeiro trimestre de 2026 anunciando EBITDA recorde puxado pela integração com a Anywhere, e a manada analítica fez o de sempre, replicou o release como quem reza terço. A palavra mágica da temporada é sinergia, eufemismo corporativo para algo que, traduzido para o português dos mortais, significa que duas empresas juntas conseguem cobrar mais do mesmo cliente cativo enquanto demitem gente nos bastidores. O número é bonito no PowerPoint, mas o PowerPoint não mostra o que importa.

Olha, o setor de distribuição de gás canalizado no Brasil é uma das relíquias mais bem preservadas do capitalismo de compadrio tupiniquim. Concessões estaduais blindadas por décadas, tarifa regulada por agência que joga no time do regulado, consumidor sem alternativa porque ninguém na sã consciência constrói duas redes paralelas de gás na mesma rua. É monopólio com carimbo oficial, e quando o monopolista anuncia "EBITDA recorde", o que ele está realmente dizendo é que conseguiu extrair mais excedente de uma base de clientes que não pode dizer não. Chamar isso de eficiência é como chamar de talento culinário o cozinheiro que cobra cem reais pelo prato porque trancou a porta do restaurante por dentro.

A integração com a Anywhere é vendida como modernização, digitalização, otimização de rotas, todo o vocabulário de consultoria que serve para esconder a substância do arranjo. Siga o dinheiro e o caminho fica curto, a Cosan compra ativos de gás, consolida verticalmente, ganha poder de barganha com a agência reguladora, transfere custo de aquisição para a tarifa via base de remuneração regulatória e contabiliza como ganho de produtividade aquilo que é, na origem, transferência de renda do bolso do consumidor para o balanço do acionista. O que se vê é o EBITDA recorde celebrado na CNN. O que não se vê é a conta de gás da padaria da esquina subindo silenciosamente, o churrasco de domingo encarecendo, a indústria perdendo competitividade porque insumo energético no Brasil é caro por decreto.

Quer dizer, ninguém aqui está acusando a empresa de fazer algo ilegal, ela joga o jogo conforme as regras que o próprio Estado escreveu para ela. O problema é o jogo. Quando você desenha um sistema em que o regulado financia campanha, o regulador vem do regulado e volta para o regulado depois do mandato, e a justiça especializada decide com base em pareceres pagos pelo regulado, não há virtude empresarial capaz de produzir resultado diferente. O recorde de hoje é a profecia autorrealizável de um arranjo institucional que premia quem souber capturar a caneta. E captura, no Brasil, virou ciência aplicada com pós-graduação no Leblon.

Há ainda o detalhe que a manada esqueceu de mencionar, o gás natural brasileiro é caro porque o pré-sal está amarrado em contratos de partilha que o setor produtivo nunca pediu, porque a Petrobras opera como instrumento de política industrial em vez de empresa, e porque cada elo da cadeia tem seu próprio cartório regulatório cobrando pedágio. A Compass não inventou esse sistema, herdou e aprendeu a navegá-lo melhor que os concorrentes, e por isso dá lucro recorde. Premiar a competência em jogo viciado é confundir habilidade com mérito, e essa confusão é o combustível que mantém o Brasil rodando em terceira marcha há quarenta anos.

O investidor que comemora o slide está certo no curto prazo e enganado no longo. Empresa que ganha dinheiro porque o consumidor não tem para onde fugir é refém da política, e política muda. Basta um governo precisando de manchete popular para descobrir que tarifa de gás dá voto, e o EBITDA recorde de hoje vira prejuízo amanhã com o mesmo entusiasmo regulatório que o construiu. Quem aposta em monopólio concedido aposta na estabilidade da pilantragem, e a pilantragem brasileira tem histórico de virar o casaco quando o vento muda. Lucro extraído por força do balcão dura até o balconista resolver mudar de lado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.