A SM Energy anunciou, sem o menor pudor, que revisou o acordo de severance da sua CEO e recalibrou as metas de remuneração variável do time executivo. Em bom português, traduziu-se: se a meta antiga era inconveniente, troca-se a meta; se o paraquedas dourado podia parecer modesto demais num eventual divórcio corporativo, engorda-se o paraquedas. O comunicado vem embalado naquele dialeto de consultoria, "alinhamento de interesses", "retenção de talento", "competitividade de mercado", que serve para o mesmo propósito de sempre, anestesiar o acionista enquanto a mão entra no bolso dele.
Olha, ninguém aqui é contra executivo bem pago. Quem entrega resultado, em mercado competitivo, com capital de risco próprio na jogada, merece cada centavo. O problema é outro, e é específico: o pacote é desenhado por um comitê de remuneração que, em regra, é composto por gente do mesmo circuito, indicada pelos próprios executivos que serão remunerados, assessorada por consultorias que vivem de recomendar pacotes generosos para continuarem sendo contratadas no ano seguinte. É o gato cuidando da sardinha, e a sardinha pagando o gato em dividendos sacrificados.
Siga o dinheiro, que a história fica clara. Quando uma empresa de petróleo refaz metas no meio do caminho, geralmente é porque o preço do barril não cooperou, a produção não decolou ou o múltiplo de mercado virou piada. Em vez de o bônus murchar, como aconteceria em qualquer barraca de pastel honesta onde o dono come o prejuízo, ajusta-se a régua. Mede-se de novo, com fita nova, e eis que o desempenho voltou a ser estelar. É a velha falácia da janela quebrada vestida de governança: a janela aqui é o desempenho real, e o vidraceiro é o departamento jurídico da própria empresa.
Há um detalhe institucional que merece atenção. Esse tipo de manobra só prospera porque o capitalismo americano contemporâneo se tornou um arranjo onde gestoras passivas detêm fatias gigantescas das ações e votam, na prática, com o conselho. O acionista pulverizado, que deveria ser o dono da empresa, virou figurante. O verdadeiro proprietário, no sentido clássico daquele que arrisca, decide e cobra, foi substituído por um algoritmo de índice que assina embaixo de qualquer proxy. Sem dono de verdade, qualquer abuso passa.
E aqui mora a parte que ninguém quer ver. O que se vê é a manchete técnica, "empresa ajusta plano de incentivos". O que não se vê é o efeito agregado de milhares de empresas fazendo a mesma coisa, ano após ano, transferindo silenciosamente bilhões do bolso de fundos de pensão, aposentados e poupadores comuns para um clube fechado de executivos que se elegeram mutuamente generosos. Não é livre mercado, é capitalismo de compadrio em versão Wall Street, com gravata melhor e advogado mais caro.
A defesa padrão é sempre a mesma, "se não pagarmos assim, perdemos talento para a concorrência". Talvez. Mas talvez o talento que só fica mediante revisão retroativa de metas não seja exatamente talento, seja conveniência. Empresa séria não muda a regra do jogo no terceiro tempo; muda o jogador. Quando o conselho prefere refazer o contrato a cobrar resultado, está dizendo, em letras garrafais, de que lado da mesa ele se sentou. E não foi do lado de quem comprou a ação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.